144.19

A Eurocopa e os desafios do futebol em um continente dividido

Copa Além da Copa

Adiado em um ano pela pandemia, o campeonato europeu de seleções volta a ser disputado em diversos países em 2021, em vez de ter sede fixa. As exceções serão os jogos das semifinais e final, todos em Londres.

Não é novidade para a Euro: até 1976, as qualificatórias eram jogadas em vários países, e somente a partir das semifinais é que uma única nação virava sede. O retorno às origens, segundo o ex-presidente da UEFA, Michel Platini, seria um jeito “romântico” de celebrar os 60 anos do torneio. Mas o senso de identidade europeia chega muito diferente a 2021 do que se imaginava em 1960.

Este texto é um complemento aos episódios 38 e 39 do podcast Copa Além da Copa, que são especiais dedicados à Euro. Para ouvi-los, clique aqui e aqui.

Eurocopa

Fonte: Divulgação

O caso Bosman

Não há como dissociar o futebol, esporte mais popular da Europa, da própria política europeia. O Tratado de Maastricht, que entrou em vigor em 1993, criou a União Europeia e introduziu a cidadania comum entre os países integrantes.

Os efeitos disso foram imediatamente sentidos no futebol, em 1995, com o chamado “caso Bosman”. O belga Jean-Marc Bosman era um jogador que atuava pelo RFC Liège, em seu país, cujo contrato havia expirado em 1990. Ele queria então se transferir para o Dunkerque, da França, mas o clube não aceitava pagar a taxa de transferência ao RFC Liège, que, por sua vez, se recusava a liberá-lo. Portanto, o jogador ficou numa espécie de limbo trabalhista.

Bosman levou o caso ao Tribunal Europeu de Justiça e venceu. Como consequência, além de permitir que jogadores ficassem livres ao final de seus contratos, a sentença do caso impediu que ligas de países da União Europeia impusessem cotas de jogadores “domésticos” aos seus clubes. Uma vez que há uma cidadania comum, todos os atletas de países da UE estavam agora habilitados para jogar em todos os países da UE.

Estava aberta a era das “super seleções” supranacionais, que reuniam os melhores jogadores europeus em alguns poucos clubes, concentrando o talento. Essa foi a primeira intrusão de instituições europeias no universo do futebol profissional e transformou profundamente o cenário do esporte na Europa.

Jean-Marc Bosman

Jean-Marc Bosman nos tribunais. Foto: Divulgação

Relações diplomáticas e futebol

O caso Bosman demonstra como o futebol costuma antecipar desdobramentos das relações diplomáticas entre os países do continente.

Isso vem de longa data: quando o futebol foi introduzido na Europa continental, na passagem do século XIX para o XX, ele chegou pelos portos comerciais, onde havia circulação de pessoas de diferentes nacionalidades, como Le Havre na França, Bilbao no País Basco, Hamburgo na Alemanha e Antuérpia na Bélgica.

Se as guerras atrapalharam as relações, isso também foi sentido no futebol. Após a Primeira Guerra Mundial, as federações de futebol de Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda (na época, ainda parte do Reino Unido) se retiraram da FIFA em 1919, em protesto pela inclusão de países das chamadas Potências Centrais, aliança entre nações derrotadas na guerra. Estava demonstrada a tensão que não se dissipou após o conflito.

Também é no período entreguerras que surge a Copa Mitropa, primeira grande competição continental entre clubes europeus. O fim do Império Austro-Húngaro após a Primeira Guerra ameaçava o desenvolvimento do futebol na Europa central. Países como Áustria, Hungria e Tchecoslováquia estabeleceram ligas profissionais de forma pioneira e, para bancarem os clubes, idealizaram uma competição que envolvesse vários países da região em 1927.

Aquele também foi o ano em que a Itália fascista estabeleceu um tratado de cooperação com a Hungria, e não à toa clubes italianos passaram a disputar a Mitropa. A amizade de Mussolini com austríacos e húngaros resultou num intercâmbio que ajudou no domínio italiano no futebol europeu na década seguinte: o Bologna, que conquistou vários campeonatos no período fascista, teve seis treinadores vindos da região do Danúbio.

Os ingleses voltaram à FIFA em 1946, após a Segunda Guerra, no esforço de restabelecer relações diplomáticas com os vizinhos. Nesse período, numa articulação entre cartolas franceses, belgas e italianos, nasceu a UEFA, União das Associações Europeias de Futebol.

A UEFA e o sonho de paz na Europa

O historiador Tony Judt afirmou em “Pós-Guerra – História da Europa desde 1945” que “o que realmente uniu a Europa foi o futebol”. O pós-guerra viu um continente rachado entre ideologias opostas, com sérias limitações econômicas e com uma necessidade urgente de reconstrução. Pensar em competições continentais de futebol em uma situação como essa parecia algo absurdo.

A UEFA não surgiu sozinha, mas sim em paralelo com a Comunidade Econômica Europeia. Já quase dez anos depois do final da guerra, a época era de buscar soluções de crescimento conjunto e de pensar em como diminuir as tensões em um continente que tinha tanto a União Soviética, enorme potência comunista, quanto as ditaduras salazarista e franquista, em Portugal e Espanha respectivamente.

É claro que a missão não era fácil. Logo nas primeiras Eliminatórias para a Eurocopa, em 1960, a tensão entre estados tão opostos apareceu. As quartas de final colocaram justamente União Soviética e Espanha frente a frente. Franco proibiu a sua seleção de viajar a Moscou e, com isso, os soviéticos avançaram para a fase final, que aconteceria na França, com um W.O.

Dezessete países participaram da fase qualificatória daquela primeira Eurocopa. Na fase final, os donos da casa foram os únicos representantes do bloco capitalista. União Soviética, Iugoslávia e Tchecoslováquia demonstraram toda a força do futebol dos países comunistas e os soviéticos levantaram o título em uma decisão que marcou mais um capítulo incrível da rivalidade futebolística com os iugoslavos.

Novos tempos e novos desafios

A crise que se abate sobre a Europa no século XXI é outra. Os rastros de destruição deixados pelo neocolonialismo levam muitos refugiados justamente ao velho continente, que tanta dor causou ao mundo. Enquanto alguns lugares se demonstram abertos e acolhedores, outros se fecham em ideologias de extrema-direita e exacerbam a xenofobia.

Em 2015, a Alemanha decidiu abrir as suas fronteiras para refugiados. Nos estádios, as demonstrações não poderiam ser mais positivas, com diversas faixas anunciando apoio à situação. O futebol alemão talvez seja um dos mais progressistas do continente, com times claramente ligados à esquerda e ultras de grandes clubes que têm costume de se manifestarem a favor das causas sociais. Já escrevemos aqui, inclusive, sobre o Bayern de Munique.

Por outro lado, países vizinhos e marcados pelo ultraconservadorismo, como Polônia e Hungria, atacaram sem dó a ideia de aceitar refugiados. As faixas nos estádios destilavam xenofobia com frases como “Europa está tomada pela praga islâmica” e “torcedores em defesa do cristianismo”.

Especialmente no leste europeu, o crescimento da extrema-direita no mundo do futebol é notável. Em nossos podcasts especiais sobre a Eurocopa, nos deparamos com variados relatos assustadores sobre lugares como Rússia, Macedônia do Norte, Croácia, Polônia e Hungria.

A Europa vive hoje um choque entre a crescente aceitação aos imigrantes e seus descendentes em alguns lugares, com um claro discurso dominante de combate ao racismo e um número maior do que nunca de atletas negros em seleções como Inglaterra e Alemanha, e uma crescente xenofobia e busca pelos chamados “valores nacionais” em outros países com governos ultra-conservadores, como são os casos de Polônia e Hungria.

Há muita curiosidade com os reflexos que tal dilema pode causar dentro de campo.

O futebol europeu contornou como pôde os embates ideológicos que dominaram o século XX. Agora, tem pela frente o desafio de vencer os ultra-nacionalismos. Em um torneio de seleções, a missão parece muito complicada.

Brexit

Protesto anti-Brexit em Manchester (2017). Foto: Wikipédia

Brexit: Um caso à parte

Se a Lei Bosman foi um divisor de águas para a formação de clubes que eram verdadeiras seleções supranacionais, poucos países conseguiram aproveitá-la tanto como a Inglaterra e a sua super poderosa Premier League. O Brexit, porém, pode fazer com que tudo fique mais complicado.

Antes do Brexit, jogadores da União Europeia não precisavam do famoso “visto de trabalho” para atuarem na Premier League. Muitas vezes negado, ele costuma ser um sério problema para contratações de talentos internacionais pouco conhecidos.

Mas a partir de agora, todo jogador europeu contratado por um time inglês também precisa do seu visto de trabalho. O fluxo de grandes estrelas do continente para a Premier League pode continuar igual, mas o problema é na parte de baixo da pirâmide, onde jovens são descobertos e lapidados. As perdas também podem chegar a outros setores da roda da economia, uma vez que, antes da pandemia, cerca de 700 mil pessoas iam à Inglaterra todos os anos apenas por causa do futebol.

O futebol inglês vem se reconstruindo e vive seu melhor momento após os estragos causados por Margaret Thatcher na década de 1980. Muito disso é por causa dos imigrantes e seus filhos. Como será o futuro?

Essa é a primeira Eurocopa pós-Brexit e nos resta apenas a atenção para como será a reação dos demais países europeus ao país que não quis mais ser um deles. Ainda mais no futebol, um campo que sempre foi responsável pela união do continente, como disse Tony Judt.


Bônus

Baixe a tabela da Euro que o Ludopédio preparou para você!

 

Como citar

COPA, Copa Além da. A Eurocopa e os desafios do futebol em um continente dividido. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 19, 2021.