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Campeonato Brasileiro Feminino A-1: mulheres construindo a trajetória do futebol no Brasil

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

O futebol segue aqui no Brasil, a despeito dos altos índices de contágio e óbitos devido à pandemia do COVID-19. Desse modo, diante das diferentes medidas de prevenção ao contágio que foram tomadas pelos governos de estados e municípios e à continuidade dos jogos nesse contexto, nos deparamos com calendários desalinhados nas competições regionais. Enquanto em estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Pará e Pernambuco os jogadores entraram em campo e já finalizaram seus campeonatos, em outros como o Paraná e a Paraíba ainda há rodadas a disputar. Um descompasso dos calendários que fica mais evidente com o início do campeonato brasileiro, no final de maio de 2021.

Em relação às mulheres, tendo por referência o campeonato brasileiro interclubes, observa-se por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) um posicionamento de colocar em andamento os campeonatos para homens e mulheres em 2021, mas com previsão de início e fim em datas diferentes.

Sendo assim, a primeira rodada do Campeonato Brasileiro Feminino A-1 teve início em 17 de abril de 2021, quando a equipe do São Paulo recebeu a equipe do Grêmio em Cotia (SP) para o jogo de abertura, em partida que terminou com o placar de 1×1.

Taça do Campeonato Brasileiro Feminino

Taça do Campeonato Brasileiro Feminino A-1. Foto: CBF

Na edição de 2021, a competição conta com a participação de dezesseis clubes[1], sendo eles: Associação Napoli Caçadorense (SC), Avaí/Kindermann (SC), Bahia (BA), Botafogo (RJ), Corinthians (SP), Cruzeiro (MG), Ferroviária (SP), Flamengo (RJ), Grêmio (RS), Internacional (RS), Minas Brasília (DF), Palmeiras (SP), Real Brasília (DF), Santos (SP), São José (SP) e São Paulo (SP). Com exceção da Região Norte do Brasil que não tem nenhuma equipe participando do campeonato, todas as outras contam com ao menos um time inscrito, sendo que a Região Sudeste apresenta a maior concentração, com nove times, sendo um de Minas Gerais, dois do Rio de Janeiro e seis de São Paulo.

Na primeira fase os dezesseis times jogam entre si, em grupo único (denominado Grupo A) e turno único. Essa etapa se encerra na 15ª rodada, prevista para 24 de junho de 2021. Em virtude dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (que devido à pandemia foram adiados para 2021), depois desta rodada haverá uma pausa no Campeonato Brasileiro.

A retomada dos jogos deverá acontecer no dia 15 de agosto de 2021, quando as jogadoras retornarão novamente aos gramados para os jogos da segunda fase, as Quartas de Final. Nessa etapa, as oito equipes melhor classificadas seguem a competição e realizam jogos de ida e volta, jogando em sistema eliminatório, estando previsto o seguinte esquema de jogos[2]: oitavo colocado x primeiro colocado (formando o Grupo B), sétimo colocado x segundo colocado (formando o Grupo C), sexto colocado x terceiro colocado (formando o Grupo D), quinto colocado x quarto colocado (formando o Grupo E). As quatro equipes vencedoras nessa fase seguirão para a terceira fase, a Semifinal.

Prevista para acontecer em dois dias (29 de agosto e 5 de setembro), a Semifinal também será disputada em jogos de ida e volta, sendo previsto confrontos no seguinte esquema de disputa: equipe vencedora do Grupo B x equipe vencedora do Grupo E; equipe vencedora do Grupo C x Equipe vencedora do Grupo D. Após a realização dos dois jogos (ida e volta) entre as equipes, a vencedora de cada chave seguirá para a disputa da Final. Destaca-se, ainda, que ao final da primeira fase as quatro equipes que estiverem nas últimas posições da tabela serão reconduzidas ao Campeonato Brasileiro A-2 (situação conhecida como rebaixamento). Assim, no transcorrer de 134 jogos e ao término da grande final prevista para 26 de setembro de 2021, será conhecida a equipe vencedora e a vice vencedora do Campeonato Brasileiro Feminino A-1, além da definição da classificação das demais equipes na tabela.

Por hora, encerrados os oito jogos da 12 ª rodada, com partidas realizadas nos dias 2 e 3 de junho, o posicionamento na tabela de classificação[3] coloca alguns times em situação mais confortável, como o Corinthians (31 pontos), o Palmeiras (30 pontos) e o Santos (24 pontos), uma vez que estão com grandes possibilidades de avançar para a próxima fase. Por outro lado, times como o Bahia (4 pontos) e a Associação Napoli Caçadorense (6 pontos) precisam de muito esforço para alcançar os resultados necessários para não serem reconduzidos em 2022 para o Brasileiro A-2, evitando, assim, o rebaixamento.

Números tendem a ser números: cumprem sua função de quantificar, dimensionar e auxiliar na construção de medidas e classificações. Mas, não dão conta de demonstrar a diversidade de percursos, sonhos, expectativas, desilusões e conquistas que podem compor o cotidiano das jogadoras e demais membros dessas dezesseis equipes, que constituem a trajetória dessas pessoas e de seus clubes e que ajudam a construir a história recente do futebol de mulheres no âmbito competitivo brasileiro. São situações que extrapolam os noventa minutos do tempo regulamentar de uma partida de futebol e vão além das quatro linhas que delimitam o campo.

Para conhecer e compreender esse universo, outros recursos e percursos são necessários: ampliar e recuar nossos olhares, rever outros tempos, refazer perguntas, capturar outras imagens, buscar os momentos de afetos e sensibilidades, as trocas, as partilhas, as aprendizagens e as experiências. Essas são possibilidades que nos ajudam a nos aproximar e alcançar a complexidade, os desafios e a beleza que o processo anterior e posterior a uma partida pode ter na vida dessas mulheres.

E, no Brasil, o futebol de mulheres ao longo dos anos foi e é marcado por diferentes panoramas (proibições, resistências, permissões, superações, perdas e conquistas), se faz necessário olhar o campo, o jogo e os bastidores com um olhar próprio a este universo. Afinal, considerando o aspecto do campo competitivo e o suporte dado por federações às entidades esportivas e às equipes, ou mesmo a própria incorporação de calendários nacionais que ampliassem a participação das mulheres no futebol, ainda temos muito a avançar.

Ainda que no esporte de rendimento (caso do Campeonato Brasileiro Feminino A-1) o foco maior seja alcançar o topo da tabela e garantir o lugar de destaque no pódio, há que se considerar que o processo de realização do Campeonato pode nos inserir em perspectivas que extrapolam a vitória/derrota e o ganhar/perder, contribuindo com aspectos que se relacionam com aprendizagens e experiências. Nesse sentido, tenho me perguntado sobre a situação dessas equipes que se encontram nas últimas posições da tabela, caso da equipe da Associação Napoli Caçadorense. Diante da possibilidade de rebaixamento no campeonato, o que significaria para as jogadoras do Napoli estar nessa situação? Como teria transcorrido a trajetória da equipe, dentro e fora dos gramados?

Conquista do Brasileiro A-2

Conquista do Brasileiro A-2 em 2020. Foto: Reprodução Facebook do Napoli

Gosto do futebol, faz muito tempo, desde a minha infância, quando me arriscava em brincadeiras junto com meus irmãos. Também foi na infância o começo da aprendizagem do torcer pelo Cruzeiro. Atualmente, sempre que possível assisto aos jogos que são transmitidos pela televisão, seja jogado por mulheres ou por homens, ou escuto no rádio alguns que não consigo assistir. O futebol tem me acompanhado em leituras e também em estudos e debates no Núcleo de estudos em que estou vinculada, o FULIA/UFMG. E cada vez mais me convenço de que o que conheço sobre o futebol é pouco diante do que há por aprender. Talvez um dos encantos que o futebol nos apresenta seja também essa possibilidade ampla para aprendermos sobre ele.

Em relação ao futebol de mulheres, além dessa possibilidade, observo que um dos desafios posto para ele é alcançar uma ampla divulgação, uma vez tem pouca cobertura por parte da imprensa esportiva. Em especial nos jornais impressos, as informações que nos chegam são escassas e usualmente relacionadas à existência de equipes locais, isso quando fazem parte da pauta de notícias. Assim, conhecer a realidade do futebol jogado por mulheres termina sendo um grande desafio! E, se estando em Belo Horizonte (cidade onde moro) já não é fácil acompanhar o Cruzeiro (equipe mineira que está participando do Campeonato), imagina então conhecer o andamento do Napoli, time do município de Caçador, Estado de Santa Catarina?  

Sendo assim, a internet termina se constituindo como uma possibilidade para tentar conhecer melhor a trajetória da Associação Napoli Caçadorense e de tantas outras equipes. Para conhecer melhor a trajetória da equipe durante o Campeonato Brasileiro, acessei dois sites: GE[4] e Uol[5]. No Uol (Universo Online) as notícias relacionadas ao Campeonato Brasileiro Feminino A-1 são mais pontuais, não sendo identificado no site uma coluna permanente que destacasse a competição. Já no GE (Globo Esporte) há uma coluna específica para divulgar as notícias sobre o Campeonato Brasileiro, que é denominada Brasileirão Feminino, sendo mais recorrente a vinculação de notícias sobre os resultados dos jogos e alguns comentários sobre a atuação dos times, tanto do Brasileiro A-1 como do Brasileiro A-2. Do começo do Campeonato Brasileiro A-1 até o dia 28 de maio o GE publicou 6 reportagens sobre o Napoli. A primeira, publicada no dia 17 de abril, destacava que a participação de duas equipes de Santa Catarina no Campeonato Brasileiro A-1 era um fato inédito na competição. Nas outras duas reportagens, o destaque foi dado aos resultados dos jogos, um empate de 2×2 com o Bahia (24/04/2021) e uma derrota de 5×1 contra o Santos (29/04/2021). No dia 30 de abril, a reportagem publicada no GE enfatizava o baixo rendimento das duas equipes de Santa Catariana, Avaí Kindermann e Napoli, além de indicar a necessidade de uma vitória de ambas na quinta rodada do Campeonato. E as duas últimas reportagens mencionaram a situação do Napoli na lanterna do campeonato: a do dia 09 de abril destacou que o empate com o Minas Icesp ajudou a sair da lanterna, e a do dia 26 de maio indicou o retorno da equipe novamente para a lanterna, que aconteceu após a derrota para a Ferroviária.

O que identifiquei nos sites respondia em partes as perguntas que eu havia feito em relação à trajetória da equipe, mas não esclarecia a questão da subjetividade das jogadoras diante do risco iminente de rebaixamento. Assim, pesquisei um pouco mais e localizei a página da Associação Napoli Caçadorense no Facebook.

Um primeiro impacto que tive ao acessar a página do clube foi identificar a manifestação de luto da equipe, uma vez que o emblema do time estava escurecido e acompanhado por um laço preto (símbolo expressando luto). Identifiquei na própria página que a razão desse luto foi o falecimento de Salezio Kindermann, o fundador do clube. Foi publicado no dia 16 de maio uma Nota Oficial, lamentando e informando que ele havia falecido, vítima da COVID-19. Na mensagem, acompanhada por uma foto dele (próximo a vários troféus), estava explicitada a relevância que Salezio tinha para o clube, uma vez que além de fundador, também era investidor do Napoli (e também do Avaí Kindermann). Outro aspecto que a Nota destacava era a sua contribuição para o desenvolvimento do futebol de mulheres, sendo mencionado que ele “foi um dos maiores incentivadores do futebol feminino nacional.”[6]

No dia seguinte, 17 de maio, em uma postagem de uma foto das jogadoras no gramado, ajoelhadas e com uma delas segurando uma camisa, foi mencionado que era difícil entrar em campo diante do falecimento do maior torcedor que a equipe tinha (Salezio Kindermann). O jogo, válido pela oitava rodada do Campeonato Brasileiro, terminou com a vitória do Cruzeiro por 3×0. A postagem deixa claro o sentimento de tristeza da equipe e o desafio que era, naquela situação, entrar em campo para o jogo.

Fazendo a leitura das postagens realizadas ao longo dos meses de março a maio de 2021, ficou evidente que além daquelas que remetiam à participação do Napoli nos jogos do Campeonato Brasileiro (inclusive algumas que demonstravam momentos dos jogos), havia outras que extrapolavam a realização da partida, propriamente dita, entre elas: homenagem a torcedor, comemoração pelo título do Campeonato Brasileiro A-2, divulgação do vencedor da rifa promovida pela equipe, participação da técnica e de jogadora em programa na Rádio Caçanjuré. E destaco ainda outras duas: uma em que as jogadoras estavam no vestiário antes do jogo contra o Bahia e dançavam uma coreografia coletiva, em um momento de muita brincadeira, riso e descontração entre elas (25/04/2021). E a outra, postada no dia 9 de maio, fazia menção ao Dia das Mães, com frases atribuídas às falas das mães das atletas, que demonstravam o apoio, o carinho e o incentivo dado por elas às filhas.

Falas de incentivo atribuídas às mães das atletas do Napoli. Foto: Facebook do Napoli

Acompanhar as postagens na rede social do clube Napoli evidenciou aspectos que me ajudaram a conhecer melhor a trajetória dessa equipe. E ajudaram a perceber que há sim a possibilidade de que a equipe estimule outros aprendizados e experiências que extrapolam os noventa minutos do jogo no campeonato, possibilidades que vão além de ganhar ou perder o campeonato ou de ver o time ser rebaixado. Sentimentos de tristeza, alegria e gratidão podem ser identificados nas postagens na página do Facebook, que de diferentes modos se constituem como evidências do cotidiano de jogadores e demais membros da equipe, envolvendo também as famílias e torcedores desse clube.

E diante dos desafios enfrentados, elas seguem no campeonato, jogando, se empenhando dentro de campo e buscando a superação dos limites que estão postos para elas, alguns dos quais também impostos a várias outras equipes de futebol de mulheres no Brasil

 

Notas

[1] Para mais informações sobre as equipes e a competição acesse: https://www.cbf.com.br/futebol-brasileiro/noticias/campeonato-brasileiro-feminino/cbf-divulga-tabela-basica-do-brasileiro-feminino-a-1-2021-competicao. Acesso em 23/05/2021.

[2] Veja mais detalhes da tabela de jogos da Segunda Fase. Acesso em 23/05/2021.

[3] Para mais Informações sobre a classificação dos times acesse: https://www.cbf.com.br/futebol-brasileiro/competicoes/campeonato-brasileiro-feminino-a1?gclid=EAIaIQobChMIisHejKfs8AIVwgiRCh0DAg14EAAYASAAEgL24_D_BwE. Acesso em 28/05/2021

[4] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/futebol/brasileiro-feminino/. Acesso em 28/05/2021

[5] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/futebol/brasileiro-feminino/. Acesso em 28/05/2021

[6] Para outras informações sobre a Associação Napoli Caçadorense, acesse https://www.facebook.com/NapoliOficial/. Acesso em 23/05/2021.

Como citar

COSTA, Luciana Cirino Lages Rodrigues. Campeonato Brasileiro Feminino A-1: mulheres construindo a trajetória do futebol no Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 14, 2021.