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Carta ao presidente do meu time

Anselmo Munir

Caro Presidente,

Além da cordialidade necessária, credenciada pelo cargo ocupado por vossa senhoria, refiro-me ao senhor dessa maneira por meio desta carta também pelos outros dois sentidos que a palavra carrega: aquilo que implica grande despesa; aquilo que implica grande esforço.

Caro Presidente, é desgaste acompanhar o seu mandato. Cada atitude, cada coletiva. Cada desrespeito, desinteresse e desleixo por essa entidade. Tenho a sensação de estar há décadas sob sua “administração”, mas não se passaram nem dois anos da última eleição. Talvez seja por cada recordação do recente tempo sofrido que enfrentamos em meados dos anos 70, depois de 1964. Por cada saudação e homenagem prestada por esse período nada satisfatório da nossa história. Enfim. Não vivemos 2020. Regressamos! Vivemos o arcaico passado.

Ainda me pergunto como esse cargo lhe foi encarregado, embora aceite dentro de um movimento democrático a sua vitória nas urnas. Embora entenda também as artimanhas utilizadas para ganhar a confiança de parte da torcida. Embora tema perder esse direito ao enxergar na sua personalidade as intenções de acabar com a democracia desse clube.

— O que você ama no seu time?

— Ah, tudo.

— Se os jogadores jogarem mal e perderem, o que você faz?

— A gente invade e quebra [tudo]. Mata os jogadores.

— Então você não ama os jogadores. E os dirigentes?

— Estes são atacados o tempo inteiro.

— E o estádio?

— Um horror, todo quebrado.

— Então, o que você ama no seu time?

— Na prática, só a mim. Eu não amo absolutamente nada no meu time. Eu amo a mim, e todo resto é uma invenção.

+ Futebol nas categorias de base: antes do campo, a quadra?

Li recentemente o livro Todos contra todos: o ódio nosso de cada dia, de Leandro Karnal, um texto sobre o momento em que vivemos, sobre a nossa sociedade. E nesse trecho, um diálogo retratado pelo autor, me lembrei do senhor. De quando deixa de olhar ou assumir a responsabilidade do seu comportamento. Quando condena todas as manifestações ao generalizá-las e chamá-las em sua maioria de atos violentos. Quando incita, assim, a intolerância já tão frequente entre nós. Sem filtro. Sem interpretações. Longe de enxergar, portanto, outro umbigo além do seu.

Recorrentes problemas dentro do vestiário não são problemas apenas dos atletas ou do treinador. E não serão resolvidos enquanto não houver união, consentimento e propósito entre os envolvidos, entre a gente. Infelizmente vossa excelência não é adepto a isso, ao bem de todos. Aos poucos, vejo a maioria se tocando disso.

É triste saber que tenha sido eleito com tantos discursos de desamor e não consiga percorrer outro caminho diferente do ódio. Sua figura não propaga boas atitudes.

Sua prioridade, caro presidente, é atender seus interesses custe o que custar. Seu amor próprio acima de todas as coisas, acima da equipe, acima da torcida, corrompe e envenena esse lugar. Ao se prostrar como dono da verdade, faz das suas ideias a única narrativa possível a ser seguida. Não nos dá outra opção que não seja odiar a sua figura, pois é o único sentimento proferido pelo seu discurso. E não será através dele que construiremos o progresso, uma camisa a ser vestida sem distinção de ser humano.

Eu, apenas mais um torcedor, temo pelo futuro desse clube. Mas não desistirei dele. Lembre-se, ele é todos.


Se futebol e política se misturam? Essa relação pode nos ajudar a refletir sobre o egoísmo de gestores desses dois campos.

Valeu. Tamo junto!


Referências

KARNAL, Leandro. Todos contra todos: o ódio nosso de cada dia. Lisboa: LeYa, 2017. Versão para Kindle.

Como citar

MUNIR, Anselmo. Carta ao presidente do meu time. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 36, 2020.