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Entre BBB e futebol um ponto em comum: o torcer

Um texto sobre torcer para quem gosta e quem não gosta de futebol. Mas também um texto sobre torcer para quem curte e quem não curte o BBB (Big Brother Brasil)[1]. Sobretudo, um texto para quem até tenta, mas não vive sem o torcer.

BBB televisão
#pracegover A esquerda da imagem garrafas de cerveja acompanhadas de um pote de salgadinho, do lado direito uma mão segurando controle remoto apontado para a televisão centralizada ao fundo, onde passa uma partida de futebol com um ícone do BBB sobreposto no centro do televisor. Imagem: arquivo pessoal

Buscaremos sair um pouco das análises convencionais sobre o futebol, trazendo os afetos mobilizados por este esporte para um outro contexto, o do entretenimento da televisão brasileira. Mais especificamente, trataremos da relação torcedora entre o futebol e o BBB.

Antes de defendermos nosso argumento, é preciso voltar um ano atrás: a chegada da Covid-19 e o início da pandemia no Brasil, quando nos deparamos com a paralisação de diversas atividades, incluindo o futebol. A ausência da arquibancada, dos jogos e de qualquer coisa que nos remetesse a sensação de torcer, nos deixou, enquanto torcedores, órfãos desse sentimento, ainda que canais esportivos estivessem com uma programação repleta de reprises de jogos memoráveis, seja de Copas do Mundo, Libertadores ou campeonatos nacionais e estaduais.

Nada mais era como antes. Um espaço vazio pairava dentro da gente, era a ausência do torcer. Mas o que é então isso que sentimos tanta falta a ponto de nos sentirmos esvaziados sem ele?

Para Eduardo Galeano (2018), torcer é aquele sentimento que nos faz jogar junto, que faz o singular virar plural, seja no caminho ao estádio, nas arquibancadas durante o jogo ou em frente à TV. Para Armando Nogueira (1993, apud TOLEDO, 1996), torcer é a habilidade que temos de entrar em campo, mesmo que de fora das quatro linhas, e cabecear a bola que vem cruzada da ponta esquerda. É a capacidade que criamos de criticar os jogadores enquanto nos imaginamos fazendo melhor no lugar deles. O torcedor seria, então, aquele que nunca perdeu um gol jogando das arquibancadas ou de seu sofá.

Já de uma perspectiva da antropologia das práticas esportivas, grosso modo, o torcer é a prática em torno dos esportes que faz com que pessoas se mobilizem a partir de seus afetos, paixões e desejos em jogo, mesmo que de fora das quatro linhas. Torcer é, portanto, uma emoção capaz de mover pessoas em prol de um jogo que não se pode efetivamente jogar (não de uma perspectiva tradicional, na prática desportiva propriamente dita, ainda que não desconsideremos o protagonismo e a capacidade de interferência que torcedores podem assumir ao longo de um jogo).

E o que tudo isso tem a ver com o BBB? Como adiantamos no início, a pandemia provocou uma interrupção imediata (e nos primeiros meses até total) do futebol[2]. No entanto, o costume, ou melhor dizendo, a necessidade de torcer não parou junto com o confinamento. Surgiram então novas formas de torcer em meio à pandemia. Não apenas uma mudança da arquibancada para o sofá da sala, ou dos gritos no alambrado para as postagens no Twitter. Mudou-se também o objeto de nosso torcer. Saiu o futebol, entrou o BBB. A partir desse momento, era o único “jogo” que tínhamos para torcer.

Não demorou muito, em pouco tempo não estávamos mais sofrendo pelos gols perdidos de nossos times, mas sim pelas provas do líder. Por aqueles em quem torcíamos e nunca ganhavam. Substituímos xingar o juiz por reclamar da direção do programa, usamos a tática não mais para saber se nosso time estava bem escalado, mas sim para analisar as alianças de nossos integrantes preferidos dentro da casa.

O fato, até então inédito na edição 2020, ganhou ainda mais protagonismo, principalmente a partir da junção improvável de dois personagens torcedores dentro da casa, o flamenguista Babu e o corinthiano Prior. A dupla protagonizou, ao decorrer do programa, um antagonismo quase que total frente aos outros participantes. Era a rivalidade que precisávamos para aquecer o jogo das arquibancadas de nossos sofás sem futebol. O reality finalmente ganhava para nós, torcedores, o ambiente de jogo pegado, daqueles que acompanhamos sem sequer ir ao banheiro ou olhar o celular.

A mobilização era tanta que contaminou até mesmo os boleiros, que desta vez também se tornaram torcedores e jogaram de fora do campo, ou melhor dizendo, de fora da casa. Deles partiram diversos “mutirões” no Twitter, incentivando que votassem na permanência de Prior e Babu, o que resultou inclusive em recordes expressivos do programa[3].

Pouco tempo depois da edição 20 do reality encerrar sua temporada, o futebol no Brasil voltou, mas a torcida não. Ao menos não nas arquibancadas dos estádios. Tivemos então que seguir com o “torcer de BBB”, ou seja, do sofá e do Twitter. E quando pensávamos que nosso torcer seria apenas esse, o BBB 2021 deu as caras e voltou para o jogo. Com um enredo diferente, mas seguindo a mesma trama de rivalidade que apaixona todo torcedor, a atual edição nos mostrou, ainda nas primeiras semanas, um antagonismo clássico entre um time rival e poderoso (o impopular grupão) contra um time pequeno e humilde mas com forte apoio popular (o tal do G3).

Nesta edição, as boleiras e boleiros seguiram jogando, agora já de volta aos gramados, mas ainda assim como torcedores e mobilizadores do programa em suas redes sociais. Como é o caso do jogador Neymar, que diariamente comenta sobre o BBB em seu Twitter.

Neymar twitter
#PraCegoVer Imagem de print-screen de uma postagem no Twitter do jogador profissional de futebol Neymar Jr. Na postagem do dia 22/02/2021 está escrito: “Quando eu posto sobre BBB: A galera que me segue e não fala português, estão mais perdidos do que eu no primeiro dia de escola” seguido por dois emojis de risos. Imagem: Reprodução Twitter.

E também das jogadoras do Corinthians, que assistem juntas ao programa na concentração dos jogos. É como se, para elas e eles, essa dimensão torcedora também esteja em falta com a ausência de torcida xingando e motivando nas arquibancadas.

Corinthians BBB
#PraCegoVer Imagem de print-screen de uma postagem no Twitter do Corinthians Futebol Feminino. A postagem do dia 09/03/2021 apresenta uma fotografia de quatro mulheres de costas para a câmera, sentadas de frente a TV que passa um episódio do BBB. Na postagem está escrito: “As confinadas na Argentina de olho nos confinados no @bbb” seguido por um emoji de riso. Imagem: Reprodução Twitter.

Então, o que percebemos com tudo isso é que o torcer, aquele sentimento que nos faz jogar junto, aquela sensação de sermos o pé que chuta ou a cabeça que cabeceia, a emoção que nos move e mobiliza em torno de um jogo que não podemos efetivamente jogar, esse tipo de torcer, à distância, talvez não nos seja suficiente, e que uma saída possível, ao menos até agora, seja expandir essa emoção que existe dentro da gente para outras direções possíveis, outras arquibancadas para além do futebol, ao menos por enquanto. Como no caso do BBB, em que a ausência do futebol, de certa maneira, potencializou o torcer pelo programa.

 

Notas

[1] Big Brother Brasil é a versão brasileira do reality show Big Brother, produzido e exibido pela Rede Globo. Sua primeira edição iniciou em 29 de janeiro de 2002, com uma segunda temporada sendo exibida no mesmo ano. A partir da terceira edição, passou a ser anual, sendo realizado atualmente de janeiro a metade ou final de abril. O programa é baseado no confinamento de 20 participantes dentro de uma casa vigiada 24h por dia, semanalmente 1 deles é eliminado por votação do público que os assiste. 

[2] A paralisação total do futebol no Brasil se iniciou no dia 16 de março e perdurou durante 3 meses, com a liberação para treinos em junho, e o retorno dos jogos oficiais dos campeonatos estaduais apenas em julho. Entretanto, mesmo com este retorno, a proibição de torcida nos estádios permanece até o momento atual.

[3] Um texto aqui no Ludopédio mesmo já abordou tal embate e suas possíveis reverberações: “Futebol e BBB: quando o jogo sai do campo e entra na casa”.

Referências bibliográficas

FREIRE, Vitor; MACHADO, Fidel. Futebol e BBB: quando o jogo sai do campo e entra na casa. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 3, 2020.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. 3. ed. Porto Alegre: L&Pm Pocket, 2018. 256 p.

TOLEDO, Luiz Henrique de. Torcidas Organizadas de Futebol. Campinas, SP: Autores Associados/Anpocs, 1996. 176 p.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Marianna Andrade

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tem experiência na área da Antropologia e estuda as torcidas organizadas e as relações de gênero no futebol.  Compõe o Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da EFLCH (GEFE) e o LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e Sociabilidade). Contato: [email protected]

Roberto Souza Junior

Um ex quase jogador. Mestrando em Antropologia Social no PPGAS da UFSCar, onde também é bacharel em Ciências Sociais. Pesquisador do LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade). Trabalha, a partir de etnografias urbanas e fotografias, com torcidas organizadas de futebol que são também escolas de samba do carnaval paulistano. E-mail: [email protected]

Como citar

ANDRADE, Marianna C. Barcelos de; SOUZA JUNIOR, Roberto de Alencar Pereira de. Entre BBB e futebol um ponto em comum: o torcer. Ludopédio, São Paulo, , 2021.
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