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Quem vai bancar esse jogo? O futebol feminino segue em busca de mais apoio

Anselmo Munir, Fernanda Zalcman

Há alguns dias uma onda de terceiros uniformes tomou conta das redes sociais. Aqui no Brasil, uma publicação casada da marca com as equipes contou com a divulgação de quatro lançamentos da Adidas: Cruzeiro, Flamengo, Internacional e São Paulo. Neles, um reflexo negativo: o uniforme do Rubro-negro e o do Tricolor Paulista contava com patrocínio máster apenas na linha masculina.

Decidimos pesquisar esse panorama nas demais equipes da série A do campeonato feminino nacional. A boa notícia é que as ocorrências são exceções. Existem duas dificuldades identificadas nesse contexto. Uma delas são os desafios de algumas gestões em angariar marcas para ocupar o espaço principal dos trajes. É o caso de Santos, Ferroviária e Audax, que não venderam o pedaço mais caro de suas camisas para nenhuma empresa tanto no masculino, como no feminino.

Outra é, ou a falta de poder de negociação para abranger o patrocínio para categoria feminina, ou um misto de despreparo e desinteresse dessas marcas em apoiarem o futebol das meninas. É a dúvida que fica nos uniformes de Flamengo e São Paulo.

Cruzeiro x Grêmio, pela série A-1 do campeonato brasileiro feminino. Foto: Igor Sales/Cruzeiro Esporte Clube.

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A discussão já é válida quando não identificamos a abertura de leque desses contratos alcançarem outras modalidades dentro do mesmo clube, como em instituições que trabalham com equipes de vôlei e basquete, por exemplo. Uma vez que a marca já é parceira da instituição, porque não abrir e fortalecer essa ligação incentivando os demais esportes? Se tratando da mesma modalidade, então, nem se fala.

Duas marcas provocaram essa falta de suporte, se assim podemos chamar, para o futebol feminino. A Nike levantou a bola com um vídeo para expor a realidade da categoria diante da comparação com as circunstâncias para realizar os eventos esportivos durante a pandemia.

“Campeonatos cancelados. Cortes de verba. Jogos sem torcida. Em 2020, o futebol descobriu o que sempre foi normal no futebol feminino. […] O futebol não precisa voltar ao normal. Ele precisa voltar melhor”, evidenciou a produção.

Já a Guaraná Antarctica, patrocinadora oficial do Brasileirão Feminino, utilizou das placas de publicidade posicionadas nas beiradas do campo para expor o convite às marcas: “Patrocine você também o futebol feminino”.

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Se por um lado podemos exaltar a presença de grandes marcas se interessando, enfim, em investir no futebol feminino, por outro, há de se lamentar que sejam tão poucas. O Campeonato Brasileiro da modalidade teve sua retomada na última semana e, infelizmente, para o choque de zero pessoas, havia somente uma placa de patrocínio ao redor do gramado. A da Guaraná. E ainda que o choque seja zero, a decepção continua gigante.

Há quem diga que não tem investimento, porque não tem qualidade e/ou visibilidade. Mas como ter qualidade e/ou visibilidade sem investimento? Afinal de contas, é uma via de mão dupla, não? E por que não apoiar algo com potencial de crescimento para, no futuro, colher os frutos disso, além de ajudar em uma causa mais do que justa, de igualdade?

Em qual momento podemos exigir dos organizadores do evento maior desenvoltura para fazer da competição um produto mais atrativo? Ou melhor, mostrar o quão próspero ele é para incentivar mais contratos publicitários?

Desequilíbrio entre mulheres e homens

Há quem se lembre do recente protesto realizado pela Marta durante a Copa do Mundo de 2019. Sem um contrato de patrocinador individual de material esportivo, a rainha disputou a competição com chuteiras pretas com o símbolo de igualdade [ = ] estampado nas laterais. O gesto marcou o início de um projeto anunciado nas redes sociais em prol da luta pela equidade salarial entre mulheres e homens no futebol e no esporte, o Go Equal.

Reflexo dessa disparidade está nas negociações. A atacante dinamarquesa Pernille Harder é a mais nova contratação com maior valor de transação da categoria feminina. O Chelsea, da Inglaterra, desembolsou “incríveis” 2,1 milhões de reais (300 mil libras) para tirar a atleta do Wolfsburg (Alemanha). Essa quantia é 658 vezes menor em comparação com o recorde da modalidade masculina. O PSG gastou 820 milhões de reais (222 milhões de euros) para tirar Neymar do Barcelona, em 2017. 

Foto: Chelsea/Divulgação.

O cenário é ainda pior se considerarmos que a situação de Marta e Harder é absurdamente superior à da maioria das jogadoras brasileiras, que muitas vezes sequer tem um contrato profissional com os clubes. Isso sem contar a falta de estrutura para treinos, hospedagens e até mesmo jogos. 

Na onda desse combate, a CBF anunciou que as premiações e as diárias serão igualmente depositadas para as meninas e para os meninos enquanto estiverem à serviço da Seleção Brasileira, que pela primeira vez contará com um time só de mulheres na coordenação do futebol feminino, já que Aline Pellegrino e Duda Luizelli assumirão posições de dirigentes dentro da Confederação.

CBF apresenta nova coordenadora das Seleções Femininas Duda Luizelli e a coordenadora de Competições Femininas Aline Pellegrino. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Felizmente, é preciso reconhecer que muito já foi conquistado e que o futebol feminino vem evoluindo e crescendo a cada ano. Não graças, mas apesar do pouco investimento. Pois se sem apoio, essa é a realidade, imagine com? Fato é que a modalidade é um caminho sem volta. Resta saber quem vai se juntar a essa luta e quando a cultura futebolística vai, enfim, deixar de lado o obsoleto preconceito para abraçar mais a igualdade.

 


Referências:

Guaraná busca atrair marcas para o futebol feminino. Meio e Mensagem

Nike lança campanha por mais apoio ao futebol feminino. MKT Esportivo

Chuteiras da Marta na Copa do Mundo 2019: Projeto Go Equal. Meio e Mensagem

Recorde de contratação no futebol feminino. GE

CBF promete igualar diárias e premiações para mulheres e homens na seleção brasileira. Olimpíada Todo Dia 

Como citar

MUNIR, Anselmo; ZALCMAN, Fernanda. Quem vai bancar esse jogo? O futebol feminino segue em busca de mais apoio. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 8, 2020.