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Futebol, música e outras sensações

Thales Zolli Gaberz

Noutro dia conversava frivolamente entre familiares e, quando minha irmã disse que não conseguia mais se imaginar ou se enxergar em uma “aglomeração” no futuro, minha resposta, instintiva, foi imediata:Eu não, pelo amor de Deus! Quando isso tudo passar, já não vejo a hora de abraçar estranhos no estádio, de distribuir afetos, seja por um gol comemorado, seja pela emoção de uma música num show”. 

Essa fala foi o suficiente para fazer despertar em mim uma curiosidade na qual nunca tinha refletido tão a fundo. Vivendo no interior, durante a infância ia com meu pai ao estádio pelo menos uma vez por ano, geralmente para assistir nossos times se enfrentando. Quando cheguei à adolescência, passei por uma fase “rebelde” na qual me afastei um pouco do futebol, porém continuei frequentando estádios, ao menos uma vez por ano. Mas nessa fase era para assistir a shows musicais, outras formas de sensações que o corpo anseia.

Show Estádio

Os confetes, as luzes, e as outras formas de se jogar dentro do estádio. Foto: Arquivo pessoal

Gostando muito de ambas as experiências – tanto o torcer nos estádios, quanto o assistir aos shows –, que isso tudo me faz pensar nas formas como os dois públicos, geralmente tão diferentes entre si, consomem e vivem aquele mesmo ambiente e seus arredores. Sim, pois em geral, os shows ocorrem em estádios de futebol. Para além dos estádios enquanto lugares de louvor às esportividades instituídas, vale pensar nos demais curiosos locais de shows que brincam também com a nossa experiência acerca do lugar.

Na capital paulista já estive em alguns lugares: no Jockey Club, que até hoje me aciona os cheiros misturados de lama e estrume de equestres e me trazem à memória afetiva os bons tempos de infância; no Autódromo de Interlagos, onde senti o calor insuportável do asfalto contrastando com o assalto de um copo de água por R$ 7,00 reais; no Sambódromo do Anhembi-Morumbi, lugar em que a potência do samba fez meu corpo vibrar numa sintonia nunca sentida. E algo desejado: minha namorada teve uma experiência que considero maluca e que um dia quero experimentar: ela esteve num show aéreo, no Campo de Marte, onde os aviões pousam e decolam enquanto você sente as sensações de idas-e-vindas no corpo.

Autódromo de Interlagos, onde a disputa pode ser tanto pelo pódio da corrida quanto pela grade do show. Foto: Arquivo Pessoal

São sensações corpóreas que te levam a outras dimensões, como no velho futebol, àquele da era pré-pandemia, no qual torcer nas arquibancadas era uma emoção singular, carregada de afetos e sentimentos.

Em termos de shows musicais, meu primeiro foi do Pearl Jam, no Morumbi, com meu pai. E se nós havíamos andado por tantos estádios em jogos aleatórios (como um Cruzeiro x Goiás, em Sete Lagoas), para mim foi impactante, depois de já estar dentro do estádio, descobrir que a gente ia entrar em “campo”. Aquelas placas de plástico no chão, pessoas sentadas e espalhadas, mas minha visão não captava nada da grama, que me fascina nos jogos, e que, naquele momento, eu queria levar um punhado dela para casa (mesmo não sabendo para que isso serviria). E o máximo: ver na minha frente o símbolo do São Paulo, tão perto (e cercado), diferente do que eu costumava ver pela televisão.

De uns tempos para cá, me parece que todos os shows de grande porte foram transferidos para o Allianz Parque. Como santista, nunca fui ver um jogo de futebol nesta arena. Porém, como “fã” musical, já estive em quatro shows lá. E para isso eu mantenho meu bom e velho “ritual de show”, por assim dizer: almoçar, tomar café e me deslocar para o local. Estar nos arredores no máximo às 15h. Se quando mais jovem eu ia cedo por me preocupar em pegar grade, hoje eu vou cedo para experienciar o máximo possível daquele momento, das sensações que me proporcionam e dos afetos que desencadeiam. Momentos como ver Paul McCartney chegando no estádio e acenando para as pessoas na fila, ou como poder ouvir a passagem de som do lado de fora, e ainda conversar com outras centenas de fãs ansiosos, os quais estão também lá vivendo um momento especial em suas vidas.

Porém, de longe, o mais curioso que vivenciei foi um show no Allianz Parque, da banda Los Hermanos (a banda de “Anna Julia”). Curioso porque naquele dia, como mandante, o Palmeiras enfrentaria o Santos. Um clássico no qual o time da casa se viu obrigado a mudar de lugar por causa de um show do Los Hermanos – interessante o ceder a própria casa, numa partida tão importante, para um público tão diferente. Como santista, foi maravilhoso o sentimento de que eu estava expulsando o time de casa para que pudesse assistir a um show de uma banda que, com certeza, não é maior do que a história desses times e de suas rivalidades.

Fazendo meu “ritual de shows”, de chegar cedo e vivenciar tudo aquilo, me levou a observar um dia extremamente peculiar. Da cerca que separava a fila da rua, que separava fãs e torcedores, e, no limite, Palmeiras e Anna Julia. Percebi que a maior parte dos que estavam ali pra ver o show não entendiam direito o que estava acontecendo e, possivelmente, não tinham conhecimento do jogo. Por outro lado, várias vezes ouvi torcedores xingando e reclamando de ter que ceder o próprio estádio, ter que se deslocar até o Pacaembu, por causa da “Anna Julia”.

Naquela partida, a gente perdeu de goleada. Mas a verdadeira vitória era nossa. Como santistas, a sensação é de que tiramos nosso rival da própria casa para que a gente pudesse assistir a um show de uma banda que, provavelmente, metade do Brasil detesta. E no final, percebemos que não era só a gente. Em estádio, quando acaba o show e o público se dirige a passos lentos pra fora, é comum alguém puxar canto de torcida (geralmente da dona da casa). Contudo, nesse dia, o que a gente ouviu no final foi, dentro da casa do adversário, depois de uma derrota num clássico, foi a torcida do Santos cantando, uma sensação inexplicável! A vitória moral foi nossa… e fora de casa.

 

Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.

Como citar

GABERZ, Thales Zolli. Futebol, música e outras sensações. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 47, 2021.