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Mário Filho e o messianismo de Pelé (1958-1966)(2ª e última parte)

Denaldo Alchorne de Souza 14 de novembro de 2019

[Continuação…]

Logo após a vitoriosa campanha da seleção brasileira de futebol no Chile, Mário Filho lançava Copa do Mundo, 62. Como um bom roteiro de filme hollywoodiano, o livro começava com a apresentação de seus personagens. Os jornalistas estavam na concentração do selecionado em El Retiro e esperavam Pelé acordar para fazerem entrevistas. Enquanto isso, “Garrincha olhava uma laranjeira cheia de laranjas ainda verdes, mas querendo amadurecer. Deu-lhe uma vontade de chupar laranja. Gostava de chupar laranja acabada de tirar da árvore. Era mais gostosa assim”. Também adorava colocar apelidos. “Pepe era a ‘Mulher de 30’. Pelé era ‘Elisa’. O apelido de Zito era ‘Chulé’, o de Nilton Santos era ‘Chiado’”. Reclamava muito durante uma partida. Garrincha era uma pessoa que divertia os outros e estava sempre buscando uma diversão para si mesmo: “Em El Retiro não havia um rio onde ele pudesse pescar. Não tinha passarinho. Foi quando Garrincha ouviu um trinado. Vinha de onde? Não era da laranjeira. Devia ser um passarinho mixuruca”. Enquanto isso, os jornalistas chilenos continuavam esperando Pelé. Os olhos de Garrincha procuraram Pelé. “E não é que Pelé vinha vindo, de suéter azul e calça preta? O que mais chamou a atenção de Garrincha foram os sapatos brancos de Pelé, que pareciam nylon e que chegavam a reluzir. Garrincha não se conteve: – Estás de pé engessado?”[i].

Na apresentação dos personagens já ficava evidente a importância de Pelé em relação aos outros membros da delegação. Os jornalistas queriam conversar era com Pelé e com mais ninguém. Quanto a Garrincha, era apresentado como um “bom moleque”, arteiro e com brincadeiras quase infantis. Esta forma de enquadrar Garrincha não era novidade. Desde a Copa de 1958 que Mário Filho usava esses recursos: Garrincha era um jogador que adorava fazer piadas, caçar passarinhos e pescar na sua pacata vila natal de Pau Grande, “era o jogador de foot-ball puro, em estado de inocência. Queria jogar foot-ball, passar por um João qualquer, brasileiro, russo, francês ou sueco”[ii].

O que modificava agora era a insistência nessas caracterizações. Na verdade, muitas vezes Mário Filho se aproveitava de histórias criadas pelo jornalista Sandro Moreira, que era amigo pessoal de Garrincha. A argumentação de Mário Filho era que, se essas histórias eram contadas pelo grande amigo de Garrincha, então elas eram verdadeiras. De certa forma, ambos foram os grandes responsáveis pela infantilização da imagem do jogador.

Em relação à caracterização do personagem Pelé, podemos mostrar o seguinte trecho: “Há luz ainda, no quarto de Pelé e Coutinho. Pelé deve estar rezando. […] Juntou as mãos e fechou os olhos. – Minha Nossa Senhora Aparecida. Protegei Dondinho. Era o primeiro nome que lhe acudia, o do pai, que lhe incutira o amor pelo foot-ball”. Depois vinha a mãe: “– Protegei Celeste. Dizia Celeste e pensava mamãe”. Os pedidos se estendiam depois para a avó Ambrosina, para o tio Jorge, para aos irmãos Zoca e Lúcia, e finalmente: “– Daí paz ao mundo, minha Nossa Senhora. Pelé fez o sinal da cruz, deitou-se puxando o cobertor. […] Com um pouco, Pelé dormia um sono tranquilo de criança”[iii].

Pelé observa a taça Jules Rimet, conquistada pela primeira vez pelo Brasil em 1958. Foto: Divulgação.

Mário Filho ainda insistia em desenhar Pelé como o “bom menino”, como fizera em 1958. Funcionou em 1958, mas em 1962, com Pelé vivenciando os seus 21 anos, transmitia certa falsidade.

A Copa do Chile iria começar. Após a estreia vitoriosa contra os mexicanos, a fatalidade, o empate contra os tchecoslovacos, onde Pelé se contundiu ao tentar fazer um gol. Os jornalistas queriam saber sobre a gravidade da contusão e torciam por sua melhora. Todos os brasileiros de Viña del Mar ou de Santiago estavam em El Retiro. “Era um silêncio de igreja, um silêncio que murmurava, num sussurro, de mãos postas. Todos ali tinham vindo pedir a mesma coisa, que Pelé não ficasse fora da Copa do Mundo”[iv].

A delegação teve que se conformar em enfrentar os temíveis espanhóis sem Pelé. Amarildo entrou em seu lugar. Fez os dois gols. E Garrincha jogou como o “Garrincha de 1958”. No vestiário, Pelé, arrastando um pouco a perna, foi agradecer Amarildo.

Garrincha, agora, era outro. Não era mais aquela pessoa divertida, sempre com um apelido pronto a colocar em todo mundo. Garrincha andava de boina na cabeça. Não estava mais rindo. Era uma pessoa pensativa, com algo fixo na mente. Daí o ar grave de preocupação. Resolveu visitar Pelé, no departamento médico, e continuou em silêncio: “– Você está preocupado, Mané?”. Pelé estranhou a expressão do rosto de Garrincha. “– É a responsabilidade, é a responsabilidade”. Garrincha parecia que envelhecera anos em poucos dias. Pelé concluía: “– Agora […] você tem de jogar por mim e por você”. Garrincha se levantou: “– Nunca pensei que jogar foot-ball pudesse preocupar tanto a gente […]. É a responsabilidade, a responsabilidade. Está de mais”. Para Mário Filho, esse foi o momento que Garrincha teve que abandonar a irresponsabilidade anterior e assumir um reino: “O Mané tinha de botar a coroa na cabeça, comportar-se como um rei, o que era muito, e reinar, o que era muito mais”[v].

Nos jogos seguintes, contra a Inglaterra e o Chile, Garrincha driblou, cruzou, armou jogadas, bateu falta, cobrou escanteio, atuou pela direita, pelo centro, pela esquerda, fez gols com o pé direito, com o pé esquerdo e de cabeça, de fora da grande área e de dentro da grande área. Foi um rei dentro de campo. Didi preparou-se para bater a falta e Mané estendeu o braço. “O Rei é Mané. Quem ia bater era mesmo Mané”.[vi]

Garrincha joga por Mané e Pelé na Copa do Mundo de 1962, sediada no Chile. Foto: Wikipedia.

Os jornalistas presentes tiveram uma nova impressão. Os fotógrafos, agora, só queriam tirar poses de Garrincha e com Garrincha. Os torcedores também passaram a observá-lo por um ângulo diferente. “Foi quando se viu que Garrincha tinha mesmo sido coroado rei”. Alguém do grupo possuía uma máquina fotográfica. “Tomava distância, fechava um olho, fazia clic e, mais do que depressa, entregava a máquina a um dos que tinham posado com o Mané, fazia questão de aparecer também ao lado do rei”. E as pessoas gritavam “– Rei Mané!”. Garrincha olhava para os jornalistas, como se dissesse: “– Que rei sou eu?” Sandro Moreira contara-lhe uma história: “– Quando você for a Londres […] vai receber as chaves da cidade”. “– Pra quê? – quisera saber Garrincha”. E Sandro Moreira respondia: “– Pra nada. Mas é uma honra que só recebem personagens ilustres, chefes de Estado, reis, heróis de guerra”. “– Eu, heim?” Garrincha estava encabulado. Imaginou recebendo as chaves de Londres: “As chaves de uma cidade como Londres deviam ser enormes, pesadas. Garrincha olhara as próprias mãos que não eram muito grandes, viu-as vazias, e riu para dentro. – Não dou pra rei”. Para Garrincha, ser rei era uma experiência nova. E não estava gostando nada disso. Fora expulso contra o Chile porque perdeu a paciência e revidou. Era muita responsabilidade ser Garrincha e Pelé ao mesmo tempo. Era melhor ser somente Garrincha, “jogar como se estivesse em Pau Grande, sentir a alegria de uma pelada. Mas tinha de ser rei até domingo. Só faltava um jogo”. Alguém gritava: “– Só esta, Rei Mané”. E Garrincha respondia: “– Rei, não”. E devolviam: “– Então só esta, Mané”[vii].

Garrincha aceitou o desafio e foi “Rei” mais uma vez. Ele estava com febre, mas tinha que entrar em campo. Sabia que era a inspiração necessária para que os outros pudessem jogar como campeões. E funcionou. Foi a melhor partida do conjunto brasileiro e, quando menos se esperava, já estava ganhando por 3 a 1. O resultado estava definido e, então, Garrincha pensou: “O jogo deve estar acabando, o Brasil venceu, tirei um peso de cima de mim. Não gosto de jogar com essa responsabilidade toda. Foot-ball é um jogo, eu gosto é de jogar meu jogo, de brincar com a menina, de correr com ela”. Fez de conta que estava em Pau Grande. Agora iria jogar para os amigos Pincel e Swing. Na primeira bola que veio em sua direção, Garrincha foi ao encontro dela. “Tocou-a, de leve, como se lhe alisasse o rosto com os dedos, numa carícia. A menina era dele. Sentiu-a entregue e carregou-a” em direção aos adversários. “O primeiro foi Novak. Esperou que Garrincha fosse pela direita e Garrincha foi pelo meio”. Depois veio Pluskal. “Esperou que Garrincha fosse pela esquerda e Garrincha foi pela direita. O terceiro foi Masopust. O quarto foi Novak de novo. O quinto foi Popluhar. O sexto foi Puskal outra vez”. O Anjo de Pernas Tortas “driblava, para direita, para esquerda, para o meio, driblava de frente, de costas, de lado, fazendo roda, indo até lá e voltando. Era um delírio e era um sonho. Garrincha sentia-se Garrincha”. Quando Garrincha ficou de frente para os tchecos, teve uma surpresa: eles ficaram parados, não queriam mais nada com ele. “Era o Mané em plena glória, era o Rei Mané reinando, absoluto, único. Os tchecos todos já não discutiam mais que Mané era o Rei”. E Garrincha também parara com a bola nos pés, “para ver se, parando, os tchecos se mexiam, e vinham para cima dele. […] E setenta mil pessoas imobilizadas, olhavam para o Mané, com a bola nos pés, e para os tchecos, também imobilizados, como sob a força de um encantamento”. Era a despedida de Mané da Copa do Chile. “E todos tiraram o lenço, segurando-o nas pontas dos dedos, agitando-o, a princípio devagar, depois com mais pressa”[viii].

Era a apoteose. O mundo todo lhe reverenciava. A sua missão enquanto “Rei” estava cumprida. Era a hora de devolver a coroa. Agora poderia voltar a ser novamente o simples Garrincha. Poderia voltar a ser aquele doce moleque que caçava passarinhos e pescava em Pau Grande com os amigos Pincel e Swing.

Mário Filho assim justificava o enquadramento proposto: se Garrincha não manteve a coroa de rei era porque ele mesmo não queria. A vida de rei exigia muita responsabilidade e pouco tempo para caçar passarinhos, para pescar e para brincar com Pincel e Swing. Bastava encerrar a Copa para que Garrincha voluntariamente voltasse a desempenhar o seu papel secundário. Assim, Mário Filho reestabelecia a ordem dos valores simbólicos por ele imaginado para o futebol brasileiro.

Foi uma bela narrativa, a criada pelo jornalista. Um escudeiro, quase um bufão, que de repente se viu na condição de rei. Colocou a coroa. Assumiu a responsabilidade. Enfrentou os desafios e venceu. Com o fim da missão, era hora de voltar a ser escudeiro e da coroa voltar ao verdadeiro rei. Era uma história baseada em contos populares e por isso mesmo era convincente. Conforme Pollak, para que o enquadramento seja efetuado com sucesso é necessário que ele convença, que haja razões plausíveis e coerentes que justifiquem a reinterpretação sugerida pelo autor[ix].

Agora era necessário Mário Filho mostrar porque Pelé ainda era o Rei. Era preciso narrar o seu retorno triunfal. Com esse objetivo, Mário Filho escreveu em 1963 a biografia Viagem em Torno de Pelé. Nele, o autor retornou às características mais marcantes de Pelé, que este já escrevera em sua autobiografia: a origem pobre, a honestidade e dignidade de seus pais Dondinho e Dona Celeste, até a sua consagração com o título de 1958 pela seleção brasileira[x].

Retornamos para onde o livro Copa do Mundo, 62 terminou. Ainda em Santiago, na festa promovida pela embaixada brasileira em homenagem aos bicampeões mundiais, Garrincha com febre resolveu não ir. Pelé foi e se achava um intruso. Participou de apenas um jogo e meio. Não era para estar lá. E então começou a ouvir gritos: “– Pelé! Pelé! Pelé sentiu-se agarrado, levantado, carregado”. Pelé levantava o braço para agradecer e acenava com a mão. “Ria o tempo todo, mostrando os dentes. Não o tinham esquecido. Para toda aquela gente enlouquecida continuava a ser o Pelé”. Os pais Dondinho e Celeste precisavam estar presentes para vê-lo. “Era uma alegria que o tomava. E eu que pensava que ia ser posto de lado? Como é que se dizia? Rei morto, rei posto. Eu não estou morto. Tenho vinte e um anos”. Ao chegar a Brasília, sentiu-se ainda mais amado. A cada parada de ônibus, as mulheres gritavam histericamente “Pelé! Pelé!”. Se ele continuava sendo amado era porque “cada brasileiro sentia um pouco Pelé. Um brasileiro fora escolhido para ser Pelé. Poderia ter sido qualquer um deles. Era o sangue, era a raça”[xi].

Mas ele precisava retribuir esse amor dentro do campo de futebol. A oportunidade chegou com a vitoriosa campanha do Santos na Copa dos Campeões da América em 1962, que lhe possibilitou disputar a Copa Intercontinental contra o Benfica, campeão europeu daquele ano. O Santos ganhara o jogo no Maracanã por 3 a 2. Pelé fez um e deu o passe para dois. Agora era esperar a final do campeonato em Lisboa. Esperava-se uma partida ainda mais difícil. O Santos, porém, esmagou o Benfica por 5 a 2 e “Pelé fez três gols maravilhosos. Perdidas as esperanças de vitória, a torcida lisboeta pode admirar Pelé. Era uma admiração que superava o clubismo, o patriotismo, que superava tudo”. Quando acabou a partida, uma multidão ocupou o campo de futebol para “ficar com pedaços de camisa de Pelé. Mãos ávidas puxavam-no pela manga da camisa. Num instante Pelé estava nu da cintura para cima, e podia correr para o vestiário debaixo de palmas ensurdecedoras”[xii]. Para muitos foi o seu melhor desempenho numa partida de futebol.

Sim, Pelé retornou à majestade do futebol, dentro e fora dos gramados. Mas, por que Garrincha também não podia ser Rei? Que impedimento existia para considerarem Pelé um rei e Garrincha outro?

Com Garrincha e Pelé em 40 jogos, a seleção brasileira obteve 36 vitórias e quatro empates. Juntos, marcaram 55 gols. Foto: CBF.

Muitos populares defendia esta dupla realeza, como bem mostra a marcha Reis do Futebol, de Joel Matos e E. Martucci, cantada no carnaval carioca de 1963:

Se eu fosse o rei Pelé / Ou o rei Mané / Jogava futebol / Só no meio de mulher / Era só mulher / Mulher, mulher, mulher.

Fazia tabelinha / Com a Gina e Bardot / Driblava a Sofia / Pra mostrar o meu valor / Dava um olé / Olé, olé, olé.[xiii]

“Rei Pelé” e “Rei Mané”: eram a esses dois mitos populares que os trabalhadores brasileiros reverenciavam como governantes carnavalescos do reino chamado “Brasil”[xiv].

Mário Filho não podia concordar com isso: com a existência de dois reis num mesmo reino. E, com esse objetivo, em 1964, ele se debruçou sobre o seu mais importante projeto como escritor. Retornou ao seu clássico de 1947, O Negro no Foot-ball Brasileiro. Realizou uma revisão do seu texto, reformatando os parágrafos e retirando as explicações que associavam o futebol com a existência de uma democracia racial no Brasil. Acrescentou mais dois capítulos que deram continuidade à história do futebol brasileiro de 1947 até aquele 1964. E rebatizou a obra como O Negro no Futebol Brasileiro.

Sobre a realeza de Pelé, o autor afirmou: “Pelé era o Rei. Nunca se escolheu melhor um ídolo. Ou um Rei para reinar no futebol. A diferença entre Pelé e Garrincha. Pelé agarrou a coroa e colocou-a na cabeça. Não para exibi-la: para que ninguém a tirasse. Garrincha nem nada”. Pelé era o jogador de futebol em si. Qualquer estádio do mundo lotava ao mencionar o seu nome. “O brasileiro não podia ficar alheio a esse fascínio. Quando se deu conta só tinha mesmo um ídolo. Ou um Rei. Não por ingratidão a Garrincha. A verdade é que Garrincha não dava para Rei”[xv].

Pelé estava de coroa e cetro em sua despedida da seleção brasileira em 1971. Foto: Reprodução/Twitter/@SantosFC.

E se Garrincha foi rei na Copa do Chile era porque jogou como Rei, jogou como Pelé. Ele não jogou pela ponta-direita. Jogou pelo meio e pelo centro. “Tratou de ocupar o lugar vago, de ser Pelé. Pelé não podia faltar: por isso Garrincha foi muito mais Pelé, no bi, do que Garrincha”. Assim: “Quando Garrincha tratou de substituir Pelé, de fazer o que Pelé faria, de ser Pelé, enfim, foi saudado como Rei”. Destruiu as seleções da Inglaterra e do Chile. Nunca jogara tanto. “Houve quem se julgasse vítima de uma ilusão de ótica. Não podia ser Garrincha, tinha de ser Pelé. E só quando Garrincha desceu, o número 7 às costas, e pousou desajeitado, as pernas tortas, é que a dúvida desapareceu: era Garrincha mesmo”. Então, foi “saudado como Rei”. Mas ele não queria colocar a coroa de rei. Ele não era rei e não gostava de ser rei. O Botafogo esticou faixas na sede colonial: “Rei dos Reis”. Pelé podia ser Rei, mas Garrincha era o “Rei dos Reis”. Enquanto isso, Pelé continuava sem jogar. A distensão na virilha custava a sarar. “Bastou, porém, que Pelé voltasse. Voltou mais Rei do que nunca. Como se precisasse deixar bem claro que o Rei era ele. Voltou para conduzir o Santos ao título de campeão mundial de clubes”[xvi].

Se Mário Filho não concebia uma dupla realeza no futebol brasileiro, permitindo que as pessoas comuns pudessem caminhar macunaimamente entre os dois polos, era porque o seu projeto de nação não concebia um mito com as características de Garrincha. Pelé consolidava a estratégia concebida por Mário Filho, desde a derrota brasileira em 1950, de reatualizar a sua narrativa clássica e freyriana, porém, agora com um sentido cristão de provação e superação. Para Mário Filho, Pelé era, na verdade, o filho libertador de toda uma nação[xvii]. Na introdução da segunda edição de O Negro no Futebol Brasileiro, o autor dizia: “Pouca gente se dá conta do que se exige de um jogador de futebol. Ele tem de representar um clube, uma cidade, um Estado, a Pátria”. E o que se espera do jogador “é que encarne as melhores virtudes do homem, no caso do brasileiro, as melhores virtudes do homem brasileiro”. Não é difícil “imaginar a pressão exercida sobre o jogador de futebol, branco, mulato ou preto. Mais sobre o mulato e o preto que envolvem a mistura racial em que se caldeia o brasileiro”[xviii].

O jornalista retomou então aspectos dos primeiros capítulos do livro que faziam referência aos jogadores negros que procuravam se embranquecer ao jogar num clube considerado respeitável. Naquele tempo, podia-se esquecer da cor e dizer: “– Eu já fui preto e sei o que é isso”. E na história do futebol brasileiro, “os pretos procuraram, à medida que ascendiam, ser menos pretos. Esquecendo-se de não se lembrar, mesmo em alguns casos, que eram pretos. Mandando esticar os cabelos, fazendo operação plástica, fugindo da cor”. Por isso, “a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, mas para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória”. Ninguém, no mundo, contribuiu “mais para varrer barreiras raciais do que Pelé. Tornou-se o maior ídolo do esporte mais popular da Terra”. Daí, “quem bate palmas para ele bate palmas para um preto. Por isso Pelé não mandou esticar os cabelos: é preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. Para exaltá-los, exalta o preto”. Pelé “é mais do que um preto: é o Preto. Os outros pretos do futebol brasileiro reconhecem-no: para eles Pelé é o Crioulo”[xix].

Magnífica síntese de toda uma vida jornalística dedicada a divulgar os esportes e pensar a importância do futebol para a compreensão da sociedade brasileira. Era o resumo de mais de três décadas dedicadas a um tipo de jornalismo esportivo, que mal escondia um projeto de construção da nação brasileira.

Dentro desse projeto, Pelé era o messias libertador. Para Garrincha sobrava um papel de coadjuvante: de um bufão, como já foi apontado anteriormente; ou, na melhor das hipóteses, de um fiel escudeiro, que diante da impossibilidade do rei, foi obrigado a substituí-lo e a realizar atos heroicos. De modo geral, o herói é aquele que parte do mundo cotidiano e se aventura a enfrentar obstáculos intransponíveis, vence-os e retorna para casa. Porém, após o retorno, o rei voltou a ser rei, e o fiel escudeiro retornou à sua condição secundária, mas agora valorizado com o título de cavalheiro concedido pelo rei.

Com esta construção narrativa, Mário Filho se afastava ainda mais de sua principal inspiração intelectual, Gilberto Freyre. Na segunda edição ficava destacada a preocupação soteriológica de criar uma narrativa onde o apolíneo Pelé era o messias salvador e a salvação seria conquistada através da conquista do título mundial. Mário Filho assim quebrava a dialética existente entre àquelas duas categorias fundamentais, com a predominância dos aspectos dionisíacos. Passava a ser fundamental o apolíneo, a vitória, o resultado, a ordem, o jogador clássico, o gol, o título.

As preocupações de Mário Filho eram muito semelhantes aos do amigo João Lyra Filho, e foi contra este último que Freyre iria refutar os argumentos que associavam as derrotas ou vitórias da seleção de futebol à fragilidade ou vigor da sociedade brasileira: “Que importa, de um ponto de vista supra desportivo tais fracassos, se realmente estamos criando, através do futebol, um bailado em que a mestiçagem brasileira de raças e de culturas encontra expressão sociológica ou satisfação estética?”[xx]

Para Gilberto Freyre, não interessava o resultado de uma equipe, não havia desafios, pecados ou culpas a serem suplantados, objetivando a redenção. Pouco importava a vitória ou a conquista de campeonatos mundiais, o que importava era o estilo, a satisfação estética de uma nação.

As refutações contra Lyra Filho também eram direcionadas a Mário Filho. Estava ficando apolíneo demais, metódico, disciplinado e moralista em excesso, preocupado essencialmente com o resultado, com a substância, com a redenção da sociedade brasileira através de um simples resultado esportivo. E, para chegar à redenção, criou-se uma hierarquização onde o totalitarismo apolíneo não permitia a convivência de qualquer outra força concorrente, a não ser que estivesse submissa à sua ordem.

***

Mário Filho morreu em 17 de setembro de 1966. E como uma justa homenagem, o Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, passou a ter o seu nome. Por ocasião de sua morte, a revista Manchete pediu para seu irmão, Nélson Rodrigues, escrever uma crônica a seu respeito:

Eu não vou contar tudo o que ele fez, porque esse homem não parou nunca. Com o seu formidável élan promocional, trouxe para o futebol novas massas. A geração do Maracanã não imagina como a multidão é coisa recente. Vejam as fotografias do Rio antigo. O brasileiro andava só, sim, o brasileiro andava desacompanhado. Quando três sujeitos se juntavam, as instituições tremiam. Em nossos velhos campos de futebol, o público era ralo, era escasso. Eis o que eu queria dizer: – Mário Filho foi, no futebol brasileiro, um criador de multidões.[xxi]

É justamente isso que Mário Filho foi, um criador de multidões para os esportes. Mas não somente isso. Era também um criador de narrativas, de certa forma, coletivas sobre o futebol e a sociedade brasileira. Algumas obras jornalísticas são coletivas no sentido das grandes epopeias clássicas. O poeta, o aedo das obras clássicas não escrevia livremente suas histórias. Essas grandes epopeias eram, na verdade, obras coletivas que foram sendo construídas através dos anos. O que o poeta precisava ter, além da sua habilidade com a escrita, era uma grande sensibilidade de captar os sentimentos, as apreensões, as esperanças e as necessidades das pessoas mais simples, daqueles que não tinham condições de expressar por escrito esses sentimentos.

Mesmo em obras para a Copa do Mundo de 2014, pode-se ler na fachada o nome do Maracanã: Estádio Mario Filho. Foto: Divulgação/Marcelo Santos.

Atualmente, quando alguém procura mostrar as características “naturais” do futebol brasileiro e, consequentemente, do povo brasileiro, busca nas crônicas e livros de Mário Filho esse referencial. No cotidiano, nas conversas de botequim, nos debates televisivos, nos jornais esportivos, nos estádios ou em frente de uma televisão durante a Copa do Mundo, o “jogador ideal”, o “estilo ideal” e a “seleção ideal” são sempre inspirados, direta ou indiretamente, nas linhas que Mário Filho escreveu nas diferentes fases de sua obra jornalística.

Notas:

[i] RODRIGUES FILHO, Mário. Copa do Mundo, 62. 1. ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1962, p. 15-16.

[ii] RODRIGUES FILHO, Mário. Garrincha, o herói à minuta, Jornal dos Sports, 16 jul. 1958, p. 5.

[iii] RODRIGUES FILHO, Mário. Copa do Mundo, 62, op. cit., p. 31-32.

[iv] Idem, p. 134.

[v] Idem, p. 181-182.

[vi] Idem, p. 202.

[vii] Idem, p. 251-253.

[viii] Idem, p. 321-323.

[ix] POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, nº 3, 1989, p. 10.

[x] Ver: NASCIMENTO, Edson Arantes do. Eu sou Pelé. São Paulo: Francisco Alves, 1961.

[xi] RODRIGUES FILHO, Mário. Viagem em torno de Pelé. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, p. 346-348.

[xii] Idem, p. 350-351.

[xiii] A Modinha Popular, Ano II, nº 9. Carnaval, 1963, contracapa.

[xiv] Ver: SOUZA, Denaldo Alchorne de. Pra frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, a dialética da ordem e da desordem (1950-1983). São Paulo: Intermeios, 2018, p. 131-148.

[xv] RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964, p. 392-395.

[xvi] Idem, p. 395-397.

[xvii] Ver: SOUZA, Denaldo Alchorne de. Pra frente, Brasil!, op. cit., p. 149-173.

[xviii] RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro, op. cit., p. XX-XXI.

[xix] Idem, p. XXI.

[xx] FREYRE, Gilberto. A propósito do futebol brasileiro. O Cruzeiro, 18 jun. 1955, p. 28.

[xxi] RODRIGUES, Nelson. O homem fluvial. RODRIGUES FILHO, Mário. O sapo de Arubinha. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 9-10.

Denaldo Alchorne de Souza

Denaldo Alchorne de Souza fez pós-doutorado em História pela USP, doutorado em História pela PUC-SP e mestrado, especialização e graduação em História pela UFF. É autor dos livros Pra Frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, 1950-1983 (Ed. Intermeios, 2018) e O Brasil Entra em Campo! Construções e reconstruções da identidade nacional, 1930-1947 (Ed. Annablume, 2008), além de diversos artigos publicados em revistas, jornais e sites. Atualmente é pesquisador do LUDENS/USP e Professor Titular do Instituto Federal Fluminense, onde leciona disciplinas na Graduação em História.

Como citar

SOUZA, Denaldo Alchorne de. Mário Filho e o messianismo de Pelé (1958-1966)(2ª e última parte). Ludopédio, São Paulo, , 2019.
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