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O Estádio do Pacaembu e o Estado Novo

Maurício Drumond 1 de maio de 2013

Recentemente, tenho me interessado nas relações entre estádios de futebol e seu significado político. Além de importantes locais de memória das comunidades em seu entorno, ou mesmo da nação em alguns casos, eles funcionam também como grandes palcos para manifestações políticas de diversos tipos.

Escrevi em outra data um texto sobre a relação de Getúlio Vargas e o estádio de São Januário, no Rio de Janeiro. Hoje, me manterei dentro do período estadonovista e abordarei a inauguração do estádio do Pacaembu, em São Paulo. Até a inauguração do Maracanã, em 1950, o Pacaembu seria o maior estádio do país. Sua construção foi mais do que um marco do esporte paulista, era uma obra do esporte nacional, que mostrava a capacidade edificadora do regime que se impunha sobre o povo.

Jornal do Brasil (reprodução).

Com suas obras inauguradas em 1936, o estádio municipal vai sofrer uma reformulação com a instauração do Estado Novo e com a indicação de Preses Maia para prefeito da cidade. Como aponta Plinio Labriola em artigo sobre o estádio (veja o artigo aqui):

Coube, assim, ao novo prefeito de São Paulo, retomar a construção do estádio municipal, tendo em vista que aquela obra suplantaria as suas supostas funções. Na verdade, o estádio deveria ter uma função maior do que apenas servir de palco para as disputas esportivas; ele deveria simbolizar a importância que o poder público e parcelas da sociedade paulista — mas também brasileira — davam para as atividades físicas, devidamente organizadas e dirigidas pelo Estado. Deveria demostrar o vigor físico que os paulistas haviam atingido, como o que poderiam atingir. Dessa forma, estava-se diante da construção de um monumento, capaz de expressar concepções acerca dos caminhos que o país precisaria seguir.

O estádio do Pacaembu seria então mais do que uma simples praça esportiva, seria um símbolo da capacidade esportiva do povo brasileiro. E esse simbolismo fica evidente em sua cerimônia de inauguração. A inauguração do estádio, no dia 27 de abril, foi uma festa de cunho nacional, e contou com a presença do presidente da República, Getúlio Vargas, dos interventores federais dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – Amaral Peixoto, Adhemar de Barros e Benedicto Valadares, respectivamente –, de Prestes Maia e Henrique Dodsworth, prefeitos de São Paulo e do Distrito Federal, assim como da primeira dama de São Paulo, Leonor Mendes de Barros, e da filha de Vargas, Alzira Vargas do Amaral Peixoto.

Folha da Manhã (reprodução).

O evento contou com diversos elementos simbólicos que representavam a união da nação. Uma bandeira nacional e uma tocha olímpica, oferecidas pelo Fluminense F.C. ao Estádio Municipal, foram transportadas por atletas do Rio de Janeiro a São Paulo. Cerca de 12.000 atletas desfilaram, representando clubes do Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo, assim como de delegações da Argentina, Uruguai e Peru, que vinham disputar provas de natação e esgrima nas festas da cerimônia de inauguração do estádio. Representantes das Forças Armadas, das polícias e do corpo de bombeiros também participaram, fechando o desfile. Prestes Maia e Getúlio Vargas fizeram breves discursos, sendo seguidos pela realização do “Juramento do esportista brasileiro”, por parte dos atletas presentes. Por fim, Adhemar de Barros e Getúlio desceram ao campo para a entrega do “Distintivo da Mocidade Paulista”, um distintivo da Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo para jovens atletas.

Ingresso de entrada para a inauguração do Pacaembu (Museu Virtual do Futebol – reprodução).

No dia seguinte, diversas provas de natação, esgrima e boxe foram realizadas como parte dos festejos. Dois jogos de futebol marcaram a “inauguração do gramado” do Pacaembu, com jogos entre equipes paulistas e os campeões de Minas Gerais e Paraná. Assim, o Palestra (atual Palmeiras), vice campeão paulista, derrotou o Coritiba por 6 a 2, e o Corinthians, campeão paulista, derrotou o Atlético-MG por 4 a 2. Vemos assim que os jogos buscavam demonstrar uma integração nacional, ao defrontar equipes de estados diferentes. Talvez o embate com equipes de estados mais distantes fosse mais representativo nesse sentido, só que isso geraria custos maiores e maior desgaste com deslocamento. Buscava-se mostrar que o Pacaembu não era apenas um estádio municipal, mas era um símbolo para todo o país. Nesse sentido, Vargas destaca a inauguração do estádio como um exemplo da capacidade edificadora do regime em seu discurso na cerimônia, dizendo:

As linhas sóbrias e belas da sua imponente massa de cimento e ferro, não valem, apenas, como expressão arquitetônica, valem como uma afirmação da nossa capacidade e do esforço criador do novo regime na execução do seu programa de realizações (Estado de S. Paulo, 28/04/1940, p. 7.).

Cartão Postal produzido pelo Museu do Futebol retrata Entrada de torcedores em jogo no Pacaembu – Década de 40 (reprodução).

As construções esportivas eram assim símbolos de uma nova era nacional. Enquanto o mundo se encontrava em guerra, o Estado Novo afirmava sua capacidade ao construir grandes monumentos a serem desfrutados pelo povo. O futebol era um símbolo não só do sucesso do país nas quatro linhas, mas também do regime de exceção que imperava.

Maurício Drumond

Doutor em Histórica Comparada, editor de "Recorde: Revista de História do Esporte", pesquisador do "Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer" da UFRJ e autor de livros e artigos sobre a História do Esporte.

Como citar

DRUMOND, Maurício. O Estádio do Pacaembu e o Estado Novo. Ludopédio, São Paulo, , 2013.
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