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Quando o valor ao juízo escancara o juízo de valor

Fidel Machado 29 de maio de 2019

No último final de semana, dias 18 e 19/05, a praia Formosa, mais conhecida como Leste-Oeste, localizada em Fortaleza-CE, sediou o primeiro Circuito Feminino de Surf do estado. Após o fatídico episódio da morte da Luzimara, surfista local, a iniciativa ganhou fôlego, uma responsabilidade e um significado a mais, pois homenageou a atleta intitulando a etapa com seu nome e estampou sua foto nas camisetas do evento. As ondas e a areia da praia, ainda com resquícios estereotipados e estigmatizantes, foram palco de um movimento potente e, provavelmente, irreversível.

Ainda que não tenha participado presencialmente, os comentários, a repercussão, os números do evento e uma conversa de almoço despretensiosa foram mais que suficientes para instigar e estimular a escrita. Ademais, todos esses fatores supracitados corroboram e refutam uma pseudo aporia inquietante que serviu e serve como justificativa para a manutenção de certas relações de poder. Desestruturar um argumento e apresentar a sua incoerência interna por meio da concretização de uma ideia é mais do que digno e válido. Não poderia me furtar ainda que a ausência e a própria escrita possam ter seus preços.

Segundo uma das organizadoras, Joana Meireles, o evento contou com 98 meninas inscritas e divididas em categorias, como mini Surf Ladies (sub 12), Surf Ladies Iniciante, Intermediária e Avançada, Surf Ladies Open; Surf Ladies Master, Body Board Open, Body Board PRO AM e casadinha (uma participante de surf, juntamente com outra de body board). A locução também foi realizada por uma mulher e, em cada bancada de árbitros, havia uma árbitra. Um cuidado para manter a representatividade em todos os níveis e setores do evento e um zelo para fomentar o protagonismo.

Cartaz do Circuito Surf Ladies, 18 e 19 de maio de 2019, Praia da Leste Oeste, Fortaleza-CE. Foto: Reprodução/Instagram/@jomrls.

Diante do valor atribuído e o cuidado com os detalhes o campeonato colecionou conquistas e rompeu com uma aporia clássica e bastante ouvida quando se trata das mais variadas modalidades esportivas de mulheres: “não tem boa premiação, pois não tem muita adesão e participação, não me inscrevo, pois a premiação é ruim”. Vale ressaltar que o mesmo argumento já foi utilizado como tentativa de justificar a inexistência de competições. Esse caminho ou pensamento se apresentava de forma a não possuir saída. Inquestionavelmente, dado os números e a repercussão do evento, o problema parece ter sido solucionado. As justificativas não são mais plausíveis. Suspeito que a gênese desse tipo de argumento ancora-se em um juízo de valor mascarado e imiscuído de interesses. O primeiro evento mostra que uma pseudo aporia se resolve com o valor que se dá ao juízo e não com juízos de valor transfigurados nas mais variadas formas.

A própria condição de ser um campeonato somente de mulheres e para mulheres auxilia no combate da lógica patriarcal dominante e hegemônica que produz efeitos, muitas vezes, danosos. A prova disso é a supervalorização do polo masculino, tido como o padrão de performance e qualidade que resulta em comparações prejudiciais, infrutíferas e, geralmente, depreciativas para o polo feminino. A materialização do campeonato e o consequente deslocamento da centralidade masculinizada tende a produzir comportamentos variados que se alteram entre elogios, desconfortos, indiferenças e silêncio. Um caldeirão efervescente de afetos.

O Ceará é berço de atletas com destaque nacional e internacional, como Silvana Lima e Tita Tavares. Todavia, de forma geral, o esporte permanece na periferia e o surf feminino ainda possui menos prestígio no que tange a valorização, o respeito e os patrocínios. A iniciativa do campex é amplamente profícua, pois nasce de forma ativa e afirmativa com vistas a engrandecer aquilo que, dada as relações de força e o pouco interesse de outros organizadores, parecia pequeno, mas já era grande. A proposta, declaradamente, combate a insistente associação e valorização dos atributos corporais em detrimento da qualidade técnica e tática para os moldes competitivos. O tensionamento tem tido vez e voz, e o conflito tem se instaurado em diversas esferas.

A cearense, Luzimara Souza, 26, era atual campeã do Circuito Cearense de Surfe 2018. Foto: Reprodução/Instagram.

Para além do evento, ainda é notória e perceptível algumas ações que diante de um mar de mulheres procura um homem, ao ver um carro de mulheres, procura o motorista, uma casa de mulheres, procura um pilar de segurança. Em territórios em que alguns corpos são, corriqueiramente, sexualizados e, muitas vezes, invisibilizados, a ocupação dos espaços e a visibilização dos ganhos são armas eficientes nas disputas políticas.

O sintomático silêncio, em determinadas ocasiões, grita. O incômodo foi gerado e os efeitos parecem ter sido produtivos. Na esteira de tantas conquistas, algumas questões adquirem relevância, como a necessidade de cursos de arbitragem e formação para possíveis professoras. Vale ressaltar que já existem ações que corroboram para a desestabilização dessa estrutura tradicional e conservadora. A própria WSL (World Surf League) já adota a política de isonomia de premiação. Tal medida já foi aderida pelo próprio circuito brasileiro de surf.

A competição na água escancara uma luta diária e uma dificuldade em diversos âmbitos. Até chegar à água muitas conjunturas cristalizadas precisaram ser combatidas. Ao chegar à água, outras tantas iniciarão. Ao permanecer no cenário do surf, seja local, nacional e internacional, os desdobramentos são incomensuráveis. Insisto no deslocamento do surf feminino para o surf de mulheres. Digo isso influenciado por algumas intelectuais do esporte que questionam o acoplamento de determinados termos às expectativas de comportamentos sociais. Dessa forma, questões, aparentemente, imperceptíveis e naturalizadas passam a ser estranhadas e alguns padrões tradicionais do surf passam a perder relevo e capilaridade.

As bundas têm dado lugar a remadas, rasgadas e batidas. Aguardemos as próximas cenas e já aguardamos as demais etapas desse circuito que já mostrou a que veio.

Fidel Machado

Bacharel em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Estética do Movimento (GPFEM - Unicamp).

Como citar

MACHADO, Fidel. Quando o valor ao juízo escancara o juízo de valor. Ludopédio, São Paulo, , 2019.
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