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Sonho que se sonha só

Marco Lourenço

Na primeira rodada do Brasileirão de 2022 uma grande festa foi preparada à luz da comemoração dos 200 anos de independência do Brasil. O jogo de abertura reuniu o atual campeão Santa Cruz e o campeão da série B do ano anterior, o Clube de Regatas Flamengo, após ter passado por uma longa desde a Série E até o acesso definitivo à elite do futebol.

Tratando-se de uma data especial, o Santa acabou mandando a partida na Arena Pernambuco para atender um público maior. Casa cheia. A festa foi muito bonita e teve ainda um ingrediente especial. Em litígio com o governo estadual, a renovada Recife recebeu solidariedade dos atletas de ambas equipes após a negligência do governador em sanar os danos causados com a obra de expansão do metrô da cidade que vitimou nove operários no mês anterior.

Antes da bola rolar, o técnico da seleção brasileira, Zico fez um belo discurso saudando e congratulando o futebol pernambucano – sem esquecer de mencionar os belos espetáculos que os demais clubes nordestinos protagonizaram na primeira divisão.

O jogo começou com um gol relâmpago do jovem meia rubro-negro Zeca, destaque do título da Copa do Brasil do ano anterior. Com a regularização das dívidas trabalhistas, o Flamengo pode reforçar a equipe e se juntar ao único carioca da primeira divisão, Vasco da Gama. Com o escândalo da fraude tributária, o Botafogo foi rebaixado e se juntou ao Fluminense – que faz campanha semelhante ao time rubro-negro carioca rumo ao retorno à primeira.

Após abrir o placar, o Flamengo precisou fazer uma alteração. O experiente lateral Ventoinha sofreu um choque na cabeça e logo foi tirado de campo. A revelação do futebol espanhol, Luis Esperanza, teve a sua grande estreia. Logo aos 20 minutos, num belo cruzamento de Esperanza, Cláudio Fatal cabeceia como diz o manual – queixo no peito, bola no chão e raspando a bochecha do gol.

O jogo pega fogo. Os comentários são até entediantes. Os times fizeram uma ótima pré-temporada, se organizaram durante as taças estaduais e puderam se reforçar. Descrição quase idêntica aos demais 18 clubes da competição. Mas a grata surpresa viria na segunda etapa. O tricolor pernambucano, vice-campeão da Taça Libertadores da América, mostrou ter couro grosso. O time retornou do intervalo demonstrando a confiança de quem deverá defender o título inédito. Em seis minutos, três belos arremates de fora da área do craque do brasileirão do ano passado, e dois tentos anotados.

O jogo continuou aberto mas com os goleiros fechando o gol. Até que aos 37 minutos do segundo tempo, após um lindo chapéu de Zeca…

(GOOOOOOOOL!)

Foto: Chico Cardillo – Fotos Públicas.

Desperto com o som estridente do narrador. A transmissão parecia um mantra tamanha morosidade da partida. Se não é jogo do meu time nem me esforço pra não dormir, essa é a verdade. Olho pra tela e vejo o precário 1 a 0 entre Flamengo e Botafogo. Respiro fundo e recobro a razão.

Estamos em 2014 e continuo sonhando com Futebol com F maiúsculo mesmo. Percebo a grande obra de ficção futurista que criei em minha imaginação e me lembro de tudo o que ouço e vejo sobre o nosso futebol. Sei que tem gente que pensa como eu ou muito parecido. Torço pelo futebol tanto quanto torço por um verso de Raul: “sonho que se sonha junto é realidade”.

Como citar

LOURENçO, Marco. Sonho que se sonha só. Ludopédio, São Paulo, v. 61, n. 9, 2014.