As ondas que (se) movem (n)o mar das torcidas - Caio Lucas M. Pinheiro

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Tese

As ondas que (se) movem (n)o mar das torcidas

das charangas à guinada antifascista na Ultras Resistência Coral (1950-2020)
Faculdade/Universidade

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Banca

Arlei Sander Damo, Bernardo Borges de Hollanda, Frederico de Castro Neves, Janice Zarpellon Mazo

Tema

Tese

Área de concentração

Doutorado em História

Páginas

424

Cidade

Porto Alegre

Arquivos

Resumo

A partir da segunda metade do século XX, os estádios de futebol constituíram-se em um espaçotempo em que torcedores, organizados coletivamente, mobilizaram-se e protagonizaram espetáculos que foram ressignificados até a atualidade. Nesse intercurso, diferentes modelos coletivos do torcer conformaram um mosaico de experiências nos estádios, designados neste estudo como movimentos de primeira, segunda, terceira e quarta ondas, terminologias nevrálgicas para o mapa esboçado nesta investigação. Assim, o recurso da metáfora das ondas do mar, para expressar a história das torcidas, esboça a fluidez e a sutileza das rupturas e das permanências das experiências dos agrupamentos torcedores entre 1950 e 2020, que compreende desde a emergência dos chefes de torcida com suas charangas – primeira onda -, atravessando as torcidas organizadas – segunda e terceira onda -, até a guinada antifascista – quarta onda. Dessa forma, esta tese tem como objetivo central analisar como diferentes modelos coletivos do torcer atribuíram valores e sentidos em cada contexto, a partir dos tensionamentos provocados pela trajetória da Ultras Resistência Coral, torcida antifascista do Ferroviário Atlético Clube (FAC), criada em 2005, que combate o machismo, a homofobia, o racismo e a violência. Nesse sentido, ao interpelarmos a memória desses sujeitos e as residualidades desses acontecimentos, existem duas histórias neste estudo, complementares e associadas, que delineiam, de um lado, uma história social dos modelos coletivos do torcer e, por outro lado, uma história da memória das torcidas e do antifascismo no futebol no Estado do Ceará, ambas histórias (se) movem (n)o mar das torcidas. Para tanto, utilizamos a metodologia da História oral, os recursos de variação de escala micro e macroscópica da micro-história, o trabalho de campo etnográfico, a pesquisa qualitativa no ambiente digital - etnografia virtual, que possibilitaram garimpar, dissecar e entrecruzar entrevistas, periódicos, imagens e formulário eletrônico. Portanto, os seis capítulos desta tese foram divididos em duas partes. Na primeira delas, há a análise desde a reflexão teórico-metodológica que guia o trabalho, a formação do movimento de primeira com a popularidade dos dos estádios, até a profusão das torcidas organizadas na década de 1980 e o desgaste no limiar do século XXI. Na segunda parte da investigação, por meio da emergência da Ultras Resistência Coral - que conforma o movimento de quarta onda da história das torcidas - avaliamos os desdobramentos de um processo de politização externo ao futebol, sob o ponto de vista de esquerda, de multiplicação de torcidas antifascistas que, ao combater a intolerância e os discursos de ódio, redimensionaram aspectos historicamente constituídos nos espaços futebolísticos.

Palavras-chaves: Torcidas organizadas. Torcidas antifascistas. Insurreição Clubística. Sociabilidades festiva, conflitiva e militante. Antifascismo transnacional.

Resumo (outro idioma)

A partir de la segunda mitad del siglo XX, los estadios de fútbol se convirtieron en un espacio-tiempo en el que los fanáticos, colectivamente organizados, movilizados y protagonistas de espectáculos que se han vuelto a representar hasta hoy. En este intervalo de tiempo, diferentes modelos colectivos de hinchadas dieron forma a estas experiencias en los estadios, designados en este estudio como movimientos de primera, segunda, tercera y cuarta ola, terminologías neurálgicas para el mapa descrito en esta investigación. Por lo tanto, el recurso de la metáfora de las olas del mar, para expresar la historia de los fanáticos, describe la fluidez y sutileza de las rupturas y la permanencia de las experiencias de los grupos de fanáticos entre 1950 y 2020, que comprende desde la aparición de las porristas con sus charangas - primera ola -, cruzando los aficionados organizados -segunda y tercera oleada -, hasta el giro antifascista - cuarta ola. Por lo tanto, esta tesis tiene el objetivo central de analizar cómo diferentes modelos colectivos de vítores atribuyeron valores y significados en cada contexto, basados en la tensión causada por la trayectoria de Ultras Resistência Coral, una multitud antifascista de Ferroviário Atlético Clube (FAC), creado en 2005, que combate el machismo, homofobia, racismo y violencia. En este sentido, al cuestionar la memoria de estos sujetos y los residuos de estos eventos, hay dos historias en este estudio, complementarias y asociadas, que resumen, por un lado, una historia social de los modelos colectivos de aficionados y, por otro lado, una historia de la memoria de fanáticos y antifascismo en el fútbol en el estado de Ceará, ambas historias (se) mueven (en) el mar de fanáticos. Para hacerlo, utilizamos la metodología de la historia oral, los recursos de variación de escala micro y macroscópica de la microhistoria, el trabajo de campo etnográfico, la investigación cualitativa en el entorno digital: etnografía virtual, que permitió realizar entrevistas cruzadas, revistas e imágenes, y forma electrónica. Por lo tanto, los seis capítulos de esta tesis se han dividido en dos partes. En el primero, está el análisis de la reflexión teórico-metodológica que guía el trabajo, la popularidad de los estadios, la formación del movimiento de la primera ola, la profusión de los fanáticos organizados en la década de 1980 y el desgaste en el umbral del siglo XXI. En la segunda parte de la investigación, a través de la aparición de Ultras Resistência Coral, que forma el movimiento de la cuarta ola en la historia de los fanáticos, evaluamos el desarrollo de un proceso de politización externo al fútbol, desde el punto de vista izquierdo, de la multiplicación de fanáticos antifascistas que, al combatir la intolerancia y el discurso de odio, han reformado aspectos históricamente constituidos en los espacios de fútbol.

Palabras clave: Aficionados organizados. Aficionados antifascistas. Club Insurrection. Sociabilidad festiva, militante y conflitiva. Antifascismo transnacional.

Abstract

From the second half of the twentieth century, football stadiums constituted a space-time in which fans, collectively organized, mobilized and starred in shows that have been reframed until today. In this intercourse, different collective models of twisting shaped these experiences in the stadiums, designated in this study as first, second, third and fourth wave movements, neuralgic terminologies for the map outlined in this investigation. Thus, the resource of the metaphor of the sea waves, to express the history of the fans, outlines the fluidity and subtlety of the ruptures and the permanence of the experiences of the fan groups between 1950 and 2020, which comprises since the emergence of the cheerleaders with their charangas - first wave -, crossing the organized fans -second and third waves -, until the antifascist turn - fourth wave. Thus, this thesis has the central objective of analyzing how different collective models of cheering attributed values and meanings in each context, based on the tension caused by the trajectory of Ultras Resistência Coral, an anti-fascist crowd of Ferroviário Atlético Clube (FAC), created in 2005, that combats machismo, homophobia, racism and violence. In this sense, when questioning the memory of these subjects and the residuals of these events, there are two stories in this study, complementary and associated, that outline, on the one hand, a social history of the collective models of cheering and, on the other hand, a history of memory of fans and anti-fascism in football in the State of Ceará, both stories move the sea of fans. To do so, we used the methodology of oral history, the micro and macroscopic scale variation resources of microhistory, ethnographic fieldwork, qualitative research in the digital environment - virtual ethnography, which made it possible to pan and cross interviews, journals, images and electronic form. Therefore, the six chapters of this thesis were divided into two parts. In the first, there is the analysis from the theoretical-methodological reflection that guides the work, to the popularity of the stadiums, the formation of the first wave movement, the profusion of the fans organized in the 1980s and the wear and tear on the threshold of the 21st century. In the second part of the investigation, through the emergence of Ultras Resistência Coral -which forms the fourth wave movement in the history of the fans -we evaluated the unfolding of a politicization process external to football, from the left point of view, of multiplication of anti-fascist fans who, by fighting intolerance and hate speech, have reshaped aspects historically constituted in football spaces.

Keywords: Organized fans. Antifascist fans. Club Insurrection. Festive, conflicting and militant sociabilityTransnational anti-fascism.

Sumário

INTRODUÇÃO, 27

PARTE I - OS DESLOCAMENTOS NO MAR DAS TORCIDAS: DINÂMICAS E RESSIGNIFICAÇÕES ENTRE CHARANGAS E TORCIDAS ORGANIZADAS, 57

CAPÍTULO I - AFETADO E ATRAVESSADO PELO FUTEBOL: TRILHANDO O PERCURSO TEÓRICO-METODOLÓGICO DA INVESTIGAÇÃO, 58
1.1) Do afeto à produção de fontes históricas: as experiências na/da delimitação temática, 58
1.1.1)História Oral, 65
1.1.2)Micro-História, 71
1.1.3)Etnografia virtual, netnografia, ciberantropologia: como podem os historiadores atuarem nas redes sociais?, 74
1.1.4)Cultura visual, imagem e acervos pessoais, 79
1.1.5)Periódicos, 83
1.1.6)Formulário, 86
1.2) Conceitos, 88

CAPÍTULO II – O MOVIMENTO DE PRIMEIRA ONDA: A EMERGÊNCIA DOS CHEFES DE TORCIDA NO FUTEBOL CEARENSE, 98
2.1) Profissionalização, popularização, espetacularização e a conformação das torcidas no futebol cearense, 98
2.2) Zé Limeira, Gumercindo e Pedão da Bananada: a emergência das charangas nos estádios, 106
2.3) Popularização e rentabilidade do futebol cearense: os dispositivos de controle das torcidas no passado e no presente, 123
2.4) A juventude e a disputa pela liderança das torcidas, 128
23 2.5) O movimento de Segunda Onda: a torcida organizada Garra Tricolor nos anos 1980, 139
2.5.1) Da estrutura e organização, 143
2.5.2) Um dia de jogo: como socializa e se articula uma torcida organizada?, 151
2.5.3) Dos sujeitos fundadores e do fim-início de outra era, 158

CAPÍTULO III – OS MOVIMENTOS DE SEGUNDA E DE TERCEIRA ONDAS: ASCENSÃO E DESGASTE DA HEGEMONIA DAS TORCIDAS ORGANIZADAS, 165
3.1) Da profusão ao reordenamento das torcidas organizadas nos anos 1990, 166
3.2) Cidade das torcidas organizadas: territórios, sociabilidades do conflito e a busca pela visibilidade nos bailes funks e nas arquibancadas, 169
3.3) “Ferroviário é foda, é tradição não é moda, quem disse que acabou, eu digo nada mudou!”, 175
3.4) Cearamor... Cearamor... Cearamor... CearAMOR... E vai rolar a festa, vai rolar, o povo alvinegro mandou avisar!, 183
3.5) A TUF é quem manda, não é mole não, reina no PV e também no Castelão, 192
3.6) O movimento de terceira onda: o desgaste da hegemonia das organizadas e a multiplicidade da renovação, 199
3.7) Quebra-mar: o que está por trás dos - não tão novos - movimentos de torcidas de pista?, 210

PARTE II - A GUINADA ANTIFASCISTA: A TRAJETÓRIA DA TORCIDA ULTRAS RESISTÊNCIA CORAL, 216

CAPÍTULO IV - O MOVIMENTO DE QUARTA ONDA: A EMERGÊNCIA DA ULTRAS RESISTÊNCIA CORAL, SOCIABILIDADE MILITANTE E INSURREIÇÃO CLUBÍSTICA, 217
4.1) A Primeira Geração: skinheads, hooligans e entrismo, 221
4.2) Ultras Resistência Coral: nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes, 237
4.2.1) Transnacionalização das torcidas antifascistas, 248
4.3) Manifesto de fundação: sociabilidade militante e insurreição clubística, 257

CAPÍTULO V – PASSADOS QUE NÃO PASSAM: FUTEBOL MODERNO, ARENAS MULTIUSO E RESIDUALIDADES DO CONTROLE DAS TORCIDAS, 268
5.1) A Segunda Geração: uma frente de esquerda como uma correia de transmissão de lutas, 269
5.2) Toda história é produto das ações de pessoas em carne e osso: o perfil social dos membros da URC, 278
5.2.1) Sobre a temporalidade dos integrantes na torcida, 284
5.3) Experiências da censura e da repressão: táticas, agenciamento e memórias, 286
5.4) Futebol moderno: os sentidos do estádio em disputa, 297
5.4.1) O direito à cidade: os impactos da arenização e a referência cultural dos estádios de massa, 305
5.4.2) De Torcedor a Consumidor: um caminho sem volta?, 311
5.4.3) Popular para quem, 313
5.4.4) “Tem que deslanchar”, 318
5.4.5) “Pequenos respiram”, 321
5.4.6) “Conforto para poucos”, 323
5.4.7) “Tão perto e tão longe”, 326
5.4.8) “Como nos bons tempos”, 329
5.5) As Jornadas de Junho de 2013, 335

CAPÍTULO VI – INSURREIÇÃO CLUBÍSTICA: A POTENCIA POLÍTICA TRANSNACIONAL DAS TORCIDAS ANTIFASCISTAS, 340
6.1) Terceira Geração: memória social e comemorações, 342
6.2) Uma história fotográfica da URC: a visualidade das imagens da torcida nos estádios, 351
6.3) Antifascismo transnacional: as redes das torcidas antifascistas no atualismo, 358
6.4) Como a URC compreende as torcidas organizadas e as torcidas antifascistas?, 367
6.5) A potência política de uma torcida: atos, greves e manifestações sociais, 374
6.6) Mulheres antifascistas: a disputa por espaço no esporte, 378
6.7) O nove de maio: memória operária subversiva da fundação do FAC, 387

CONSIDERAÇÕES FINAIS, 392

REFERÊNCIAS, 402
APÊNDICES, 418
ANEXOS, 422

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