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Carles Viñas (parte 2)

No final de julho de 2020, após o relaxamento da quarentena em Barcelona, a equipe do Ludopédio se encontrou em um café com o professor Carles Viñas, para uma conversa que havia sido marcada inicialmente para acontecer em março. Doutor em História Contemporânea pela Universitat de Barcelona (UB) e professor da mesma instituição, Carles Viñas é uma das referências para quem deseja estudar a relação entre futebol e política, na Espanha e na Europa. Viñas é autor dos livros: El Mundo Ultra: Los Radicales del Fútbol Español (2005), Tolerància zero: La violència en el futbol (2006), Sankt Pauli: Un altre futbol és possible (2017) e Futbol al país dels soviets (2019). A conversa rendeu muito, então não se espante se você ver o nome do professor Viñas em outros projetos do Ludopédio.

Boa leitura!

Carles Viñas, professor da Universitat de Barcelona (UB).

Ainda sobre o Barça, como você vê as diferentes ideologias dos presidentes do clube. Josep Lluís Núñez tinha uma postura sobre o catalanismo, e Joan Laporta tinha outra, completamente diferente. Cada um pensava a Catalunha de formas diferentes. E como é agora com Josep Maria Bartomeu

Sim, sim. Quando acaba a Guerra Civil [em 1939], os primeiros presidentes do Barcelona, que tiveram que mudar o nome e o escudo, são simpatizantes do regime de Francisco Franco. É um marquês, o Marqués de la Mesa de Asta [Enrique Piñeyro Queralt], alinhado ao franquismo. Depois, evidentemente, diante da relevância do clube, os presidentes na sequência foram simpatizantes do regime franquista: Francesc Miró-Sans, Agustín Montal Galobart etc. Quando chega Josep Lluís Núñez, presidente do clube durante a Transição Democrática [1978], o que ele tenta fazer, de uma forma conservadora, é que o Barça não seja uma ponta de lança do catalanismo mais visceral, ou de esquerda. Ou seja, tentou montar uma Junta Diretiva composta por gente de todos os partidos políticos, uma tentativa de representatividade transversal. E isso funcionou durante duas ou três décadas, embora, evidentemente, essa identidade do clube que falávamos, de um clube catalão ou da ideia de “més que un club” e tal, não chegou à ênfase que Joan Laporta deu anos depois, e porque o contexto mudou também. Uma coisa é o contexto da Transição Democrática, que talvez era mais favorável à uma mudança de presidentes, de construir uma democracia, e outra coisa é quando chega Laporta em um momento em que a democracia já está consolidada. E aí se vê as mudanças de uma postura mais radical e mais perto do independentismo. Depois que Laporta saiu, tentaram fazer como Núñez fazia, com gente de várias vertentes políticas: “sim, somos um clube catalão e tal, mas sem levantar bandeiras”. Sim, com o Laporta, levantou-se bandeiras em âmbitos sociais, culturais e políticos. Talvez ele tenha sido o primeiro a dar os primeiros passos, quando o contexto político permitia, mas agora não, o Barça é como um espectador. Só ocorre quando os sócios pressionam a diretiva, mas nunca será o primeiro a dar o exemplo. E antes, como Laporta, sim. Essa é a grande diferença entre eles.

E Núñez tinha relações políticas com Jordi Pujol [presidente da Generalitat da Catalunha]

Sim, um era presidente do Barça e o outro da Catalunha. Um era o presidente do clube, de uma das entidades mais importantes da Catalunha, então de alguma forma tinham que manter relações. Outra coisa que fizeram foi não criar disputas entre eles. Evidentemente não compartilhavam o mesmo ideário político, mas estavam dispostos a se entender de alguma maneira. Mais do que se entender, não criaram caso. Porque para um, perder o apoio de um clube que era uma referência da Catalunha, não era interessante. Portanto, estavam condenados a entender-se. 

Voltando para o Laporta. Quando ele foi presidente, ele usou muito o lema “més que un club al món”. Como fica, do ponto de vista global e local, a Catalunha e Barcelona? O lema se tornou algo efêmero ou ainda carrega algum sentido?

O lema é dos anos 1960, de anos da ditadura. Representava aquilo que eu dizia antes, uma ideia de ir mais além do que um clube de futebol, ou mais além da realidade futebolística daquele momento. E que, para muita gente, o Barça representava isso. Logo, isso vai mudando, e a ideia de Laporta era que esse lema “més que un club” fosse universalizado. Ele fez uma campanha para o clube chegar a 1 milhão de sócios, tentou fazer o Barça o maior clube do mundo. Mas sempre tentando manter a vinculação e o propósito com o catalanismo. Foi uma coisa que Laporta deixou claro. E acredito que todos os presidentes têm isso claro, ainda que alguns pensem que se dependesse deles, tentariam erradicar ou liquidar isso. E creio que nem se atrevem, porque o clube tem uma base social grande. E mesmo assim deram passos nesse sentido. Então, no processo de comercialização de uma marca global do Barcelona, isso de “més que un club” foi diluído um pouco, “sim é ‘més que un club’, porque é um clube universal e transversal, um refúgio de culturas através do esporte e tal”. Mas o lema não é para dizer que o Barça é universal, é para dizer que há uma questão mais local, ainda que seja em mundo global. Então, pode-se dizer que é glocal, que é local e global ao mesmo tempo, e eu acho que é o caso do Barça, em nível de entidade e de marca, com esse lema. 

O lema também tem uma questão filantrópica. Foi usado quando o clube se aproximou da UNICEF, por exemplo.

Sim, isso é o que o clube pode vender. Diziam que é “més que un club”, porque tem sócios por todo mundo, mas a Juventus também, ou Manchester United, não? Ah, mas o Barça tem uma academia de futebol em todo mundo, sim, mas o Chelsea também, não? Ah, mas o Barça leva a UNICEF na camisa. OK, mas outros clubes também já levaram. Então, o que fizeram foi tentar ampliar a massa social, ou a base que assume esse lema como próprio. Tentaram universalizar, como um tipo de venda que não tem a ver com a realidade de quando surgiu o lema. Tiraram o lema de contexto. Evidentemente, não é o mesmo de hoje, mas muita gente pensa que o Barça é mais que um clube por isso, por esse lema. Se o Barça fosse um clube, somente um clube, muita gente não seria do Barça. E pra muita gente é indiferente se o clube ganha ou perde, o importante é levar a senyera que representa a Catalunha. Para muita gente, mesmo em 2020, o clube segue sendo “més que un club”. É muito difícil de explicar, em pleno 2020, com o futebol extremamente comercial e o clube vendendo sua marca ao redor do mundo. Para muita gente o Barça é algo mais, ademais de tudo isso. E é verdade isso, tem muita gente que é do Barça, não porque ganha, ou porque é o mais popular, ou porque tem Messi, eles são do Barça porque no seu escudo tem a bandeira da Catalunha. Ganhando ou perdendo, porque o orgulho é esse, não é o título da Champions, tanto faz para eles, o importante é o que o clube representa. E no fundo, é um discurso muito romântico, né? É nostálgico se apegar a isso em um mundo que está mudando para o extremo disso. Manter essa ligação, é de alguma forma nostálgico. E quando essa ligação se romper, o Barça será só mais um clube de futebol, como todos os outros, uma marca comercial. Mas enquanto isso se manter, esse fio que liga ao local, o Barça segue diferente.

Sobre isso, no ano do centenário do Barça [1999], houve algumas críticas de que o clube estava se tornando uma marca. E nos jornais da época, alguns jornalistas até diziam que o Barça não era mais “més que un club”, e sim “més que una marca”. Pois o clube estava transformando o lema em uma marca.

Sim, sim. O Barça é uma marca comercial hoje em dia. Como o Madrid, o Chelsea, a Juventus ou Manchester, todos! E são marcas porque têm negócios em todo o mundo, e isso todos estão de acordo. Quem não está, é porque não quer ver. Mas, têm alguns clubes, por exemplo, como a Juventus não se pode comparar com o Barça, porque o clube de Turim é o Torino, o clube da cidade. O que acontece com a Juventus, é que é um clube de migrantes que vêm do sul da Itália para trabalhar nas fábricas da Fiat, e para integrar-se, se tornam torcedores da equipe do patrão, a Juventus. O que se passa em Turim, é que as pessoas odeiam a Juventus, porque o clube da cidade é Torino, um clube histórico. Aqui é diferente, o Barça está muito enraizado à cidade. Tem uma importância social, cultural e política.  Está muito enraizado. E mesmo o futebol sendo um negócio e tudo isso que falávamos, custa muito para as pessoas que cresceram vivendo isso dizer que o Barça é só uma marca ou uma moda. Eles não podem, custa muito assumir isso. E a magia do futebol é isso: apesar das pessoas verem que o futebol de hoje é uma merda, elas não podem abandonar seu clube de toda a vida, para mim isso é o mais fascinante. As pessoas sabem que isso é uma merda, que o clube gasta milhões e tudo mais, mas quando vai ao campo, sofre pelo seu clube. Essa é a mágica do futebol para mim.

Mudando um pouco de assunto e falando sobre a sua pesquisa sobre o St. Pauli e como um outro futebol é possível. Como é possível pensar em um outro futebol? É possível que outros clubes como o St. Pauli? Ou o St. Pauli vive a sua utopia própria?

O St. Pauli nasceu como um clube mais vinculado com aqueles que poderiam praticar esporte naquela época, isto é, a burguesia e a aristocracia. Era um clube de direita, militarista e nacionalista, nas suas origens. Isso mudou nos anos 1980, devido ao contexto, devido à cidade, devido aos movimentos sociais, devido ao momento político que se a Alemanha vivia naquele momento. E isso transforma o clube naquilo que conhecemos, uma referência para os movimentos sociais, para a esquerda alternativa. Como um clube de aristocratas, de burgueses capitalistas, nacionalistas alemães, hoje em dia é uma referência para a esquerda alternativa? Foi isso que me fascinou, e tentei explicar de alguma maneira. E esse foi um dos motivos que me levou a fazer o livro. E logo, conforme fui estudando, evidentemente, o St. Pauli também é uma marca comercial, que explora isso, tem milhões de produtos, desde óculos até doces, de tudo. Mas, ainda assim, com o livro, Natxo Parra e eu tentamos mostrar que mesmo imperfeito, o St. Pauli é o que mais chega perto daquilo que gostaríamos que fosse um clube de futebol. Quero dizer, no estatuto do clube está escrito que é um clube de bairro, portanto, ligado à comunidade, não quer dizer que não é uma marca global, porque no fundo é, mas não é por sua vontade própria. Porque ele segue mantendo contato com o seu entorno. Por exemplo, em 2019, eles perceberam que muita gente visitava o Millerntor somente para fazer turismo, e isso tirava ingressos das arquibancadas dos habitantes da cidade, eles passaram a limitar. Portanto, o clube tenta manter essa identidade mais local. E isso eles buscam, ganhando ou perdendo. Porque não buscam títulos, eles nunca ganharam nada. E não vai ganhar [risos]. É um clube comprometido com a sua comunidade, com causas sociais, contra o racismo, contra o fascismo, contra a homofobia, a favor dos refugiados. E isso é uma coisa que todas as entidades sociais, como os clubes de futebol, deveriam fazer, isto é, se imbricar com o seu entorno, e o St. Pauli faz e por isso, é um clube interessante. É replicável? Eu creio que há clubes, não similares, mas que tem um propósito reivindicativo, ou de protesto, que tem algum significado em algum momento. Por exemplo, o Celtic da Escócia, é um clube fundado para conseguir fundos para a comunidade de irlandeses que não tinham recursos quando chegaram à Glasgow, e que foram rechaçados pela comunidade local, que era protestante. Portanto, é um clube que já não se vincula aos refugiados de lá do início. O PAOK, o AEK, o Livorno, há uma infinidade de clubes… o Red Star de Paris, muitos. Cada um à sua maneira, para dizer que o St. Pauli não é uma exceção. O título do livro “outro futebol é possível” é porque há outros clubes, tem muitos exemplos. O St. Pauli não é o único. Acho que o mais importante é conhecê-los, e ver que para além do futebol enquanto negócio, há outros modelos que são possíveis. Claro, o St. Pauli, ano passado ou retrasado o clube gastou quase 40 milhões de euros em merchandising. Sim, lembre-se o futebol é um negócio, mas assim como outros clubes investem na contratação de jogadores, o St. Pauli investe em uma campanha para ajudar uma campanha na América Latina, ou os torcedores tem voz e voto, e que levam em consideração. Isso é outra coisa interessante do St. Pauli, assim como outros clubes, os dirigentes são presidentes de Sociedades Anônimas, mesmo na Alemanha tendo a regra do 50% + 1, os sócios são proprietários dos clubes, ou tem um poder direito nas decisões do clube. E sabem que se os dirigentes não os escutam, no dia seguinte tem protesto de todos os públicos. A torcida tem um poder que não se vê em muitos clubes. 

E na Espanha, há algum clube assim? O Rayo Vallecano, por exemplo?

Na Espanha sempre dizem “O Rayo é o St. Pauli espanhol”, e eu digo “Não!”, porque uma coisa é a torcida e outra coisa é o clube. O que acontece no St. Pauli, a torcida tem demandas que os dirigentes assumem como suas, e no Rayo isso é impossível. Ainda que a torcida seja alternativa, de esquerda, de operários e tal, quando chega a demanda para os dirigentes não acontece nada. Porque o modelo de negócio não tem nada a ver com as demandas das arquibancadas. Portanto, não dá para comparar os dois, pelo menos para mim. Um é um clube de 50% + 1 de sócios, e o outro é uma SAD (Sociedad Anónima Deportiva), e essa é a grande diferença do St. Pauli para o Rayo.

Um jogador como Zozulya não chegaria ao St. Pauli nunca?

Nunca. Se os dirigentes do Rayo tivessem consultado os seus torcedores, eles não teriam contratado o Zozulya. Eles nem teriam pensado em contratá-lo se ouvissem os torcedores. E contrataram. Se fosse no St. Pauli não contratariam, e essa é a grande diferença. O St. Pauli sabe para onde vai, por isso não contrataria um Di Canio, um fascista [risos]. 

Falando agora um pouco sobre a pandemia e a crise do coronavírus que vivemos hoje, e claro sobre futebol. Você acredita que um novo futebol possa surgir depois da crise do coronavírus, ou virá uma coisa pior?

Eu creio que a coisa pior já está aí. Desde o momento que os agentes em torno do futebol decidem jogar sem público, sem torcida, já é outra coisa pior. Desde o momento que eles permitem, eu creio que a batalha está perdida. Porque eu não vi resistências. E se valeram que não podíamos sair do confinamento. Não houve uma intenção de tentar organizar uma resposta, mais ou menos organizada, sobre isso. Como voltam a competição sem torcedores na arquibancada? Muita gente está feliz: “pelo menos vejo o nosso time”. Muita gente, inclusive paga para colocarem uma fotografia sua no estádio. Pagam! Não, isso não pode ser. É negócio puro. Já perdemos. Sem torcida, não é o mesmo. “Fico em casa vendo pela televisão”.

Um campo sem torcida o futebol não tem alma.

O artigo que eu escrevi esse mês para a Panenka se intitula “Não chamem de futebol”, porque isso é outra coisa. É o negócio da bola, indústria da bola. Futebol, não! Futebol é com a torcida dentro do estádio. Isso é um negócio que se joga, porque tem um agente que precisa lucrar. A televisão, a Federação, a Liga Profissional, os árbitros, os que investem nos clubes, todos da indústria do futebol. Passaram por cima dos torcedores. É até melhor, não tem protesto, não tem tumulto, não tem violência. Faz um tempo me perguntaram “como será o futebol do futuro?”, vai ser um futebol sem arquibancada, um campo sem público, e as pessoas assistirão pela televisão de sua casa, porque assim é mais rentável. Não precisa de escolta policial, não tem custo para o governo, não tem custo para a Liga. Não tem confronto entre as torcidas, não tem nada. Cada um em sua casa assistindo à partida tranquilo, mas claro, pagando. Um negócio perfeito. Um campo, onde todos jogam contra todos, e já está. 

Em algum momento durante o confinamento, quando os jogadores e clubes discutiam redução salarial, eu pensei que ali poderia surgir um novo futebol. Mas agora, da forma como voltou, não me parece possível. Como você viu isso?

Eu acho que quando tiver uma vacina, as coisas vão normalizar. Acho que voltaremos como antes. O Ministério da Saúde tem acompanhando estudos e pesquisas sobre remédios e vacinas. E em breve, tudo será como antes, e as pessoas irão aos estádios como se nada tivesse acontecido. Mas, retornar às competições sem a torcida, da forma como foi feito, foi um sintoma de que isso já é outra coisa, que não é o futebol de antes. Que já sabíamos que não era, mas que agora ficou muito claro. A torcida não tem nem voz e nem voto, e o pior não protestam. E aí não tem o que merecem. Quem puder paga e vê as partidas pela televisão, já está.

Seu último livro é “Futbol al país dels soviets”, poderia falar um pouco desse livro e a pesquisa em torno dele?

Bom, como sempre nasce da curiosidade. Na verdade, nasceu de um curso, que fizemos na Universitat de Barcelona sobre o centenário da Revolução Russa, em 2017. E o departamento me sugeriu falar sobre o esporte soviético. Daí comecei a ler a biografia e a pesquisa, e vi que haviam histórias super interessantes que não estavam contadas. Então decidi fazer o livro, que é um pouco da história da chegada do futebol na Rússia, e todos os problemas quando chegou e como foi se desenvolvendo até o impacto da Revolução de Outubro de 1917, tanto nos clubes, quanto no futebol de forma geral. No final, o resultado foi uma pesquisa muito bem aceita pelo público. A versão em castelhano está sendo lançada agora, a versão em catalão está na segunda edição, espero em breve ver em inglês ou português [risos]. E eu estou muito contente com o resultado, pois eu não escrevo e pesquiso pensando nisso, faço porque gosto e me interesso, se vira um livro e as pessoas gostam, melhor. 

A Espanha publica muitos livros sobre futebol…

Isso tem mudado. Na verdade, não havia muita literatura sobre futebol. Havia pouquíssimos autores que vez ou outra faziam essa incursão. Desde a criação da Panenka, e depois da Líbero, essas revistas que tratam do futebol a partir de uma outra vertente, está criando-se essa comunidade de leitores ávidos por futebol, que querem saber não os resultados, mas que expliquem o futebol desde outro ponto de vista, social, político, geográfico, geopolítico. Começa a ter um pouco de interesse, por isso antes, uns 10 anos atrás, isso não existia. 

Com um olhar de fora, me parece que há uma produção grande de jornalistas e memorialistas escrevendo sobre futebol, e há poucas pessoas da academia escrevendo…

Antes, o que era típico eram as biografias de jogadores. O Barça contratou o Ronaldo, e no ano seguinte já saia o livro “Ronaldo: uma vida azulgrana”. Essas biografias de jogadores eram feitas por jornalistas, que tinham mais acesso e tal. Mas isso tem mudado, hoje em dia tem algumas pessoas que saem da academia e escrevem outras coisas sobre futebol, todavia, não são muitos. Ainda tem o interesse nessas biografias, mas mesmo os jornalistas estão olhando para questões mais acadêmicas. Como o Toni Padilla, que é jornalista e historiador. Dá pra dizer que está criando um mercado aí. E está cada vez mais claro que o futebol não é pão e circo, o futebol é mais do que isso. É verdade que o poder o usa assim, durante o franquismo foi assim, mas também o anti-franquismo usou o futebol. Porque o futebol tem esse caráter dual: poder e protesto. O futebol é pão e circo? Sim, mas também é protesto. Havia o franquismo, mas também o anti-franquismo. Sempre tem a dualidade, não podemos ficar somente com um lado da moeda.

Sobre o campo acadêmico na Espanha, como é estudar futebol na História, ou nas Ciências Humanas?

Se no Brasil tem um campo, aqui tem um quarto de círculo de escanteio [risos]. Essa é a realidade daqui. Na Espanha, historiadores de futebol são uma figura praticamente nova. São poucos, e ainda é visto com pouco rigor pelos colegas de área. É possível fazer história do esporte, com muito rigor e reflexões muito interessantes, mas está só começando. Eu, na Universitat de Barcelona, tenho um colega que é referência, Carles Santacana. Ele é atualmente catedrático de História Contemporânea e Mundo Atual, do Departamento de História e Arqueologia, é justamente o período do nascimento dos esportes modernos, não? E para mim, ele é uma referência. E aos poucos estamos montando cursos, como o Centenário da I Guerra Mundial, em que fiquei encarregado de falar sobre esporte. E depois, quando outros colegas assistem o curso percebem que é interessante. Eu, por exemplo, uso futebol para explicar a História. Primeiro, porque é uma linguagem mais compreensível, e chama a atenção de muitos alunos, e consigo fazê-los se interessarem mais pela História.

O livro do St. Pauli, não é um livro sobre futebol, é um livro sobre a História da Alemanha, e o futebol é a minha desculpa para explicar isso.

E o “Futbol al país dels soviets” é o mesmo. Eu uso o futebol para explicar História, e creio que é um método interessante, didático e que cada vez mais tem adeptos pessoas interessadas. Mas de novo, com muito rigor, não são livros de jornalistas ou biografias, são pesquisas históricas, com as fontes e bibliografia, com trabalho de campo, como tem que ser qualquer trabalho. É verdade que estamos uns 10 anos-luz de realidades como a academia anglo-saxã, da Inglaterra. Ali tem produções desde os anos 1960 e 1970, e aqui não. Por quê? Bom, porque as realidades são totalmente diferentes, eles têm um departamento dedicado aos estudos sobre hooliganismo, na University of Leicester. Aqui, com sorte, temos um curso de quatro créditos [risos]. Mas também, aqui o futebol é desvalorizado, as pessoas o tratam como algo menor, como se fosse apenas um passatempo e tal. E nós sabemos que o futebol tem conotações políticas e sociais muito interessantes que merecem ser pesquisadas. Pouco a pouco, as coisas estão mudando, cada vez mais eu tenho alunos que estão interessados em fazer o trabalho de conclusão de curso sobre futebol. Faz pouco tempo, um aluno defendeu um trabalho sobre futebol e fascismo. Isso mostra que tem interesse, e me parece bem. O campo está crescendo e evoluindo.

Para finalizar, sempre fazemos duas perguntas clássicas aqui no Ludopédio. A primeira, qual é a sua partida inesquecível?

Uma partida inesquecível? Bom, eu tenho duas. A primeira é uma que não vi no estádio, porque eu era muito pequeno. Mas é a primeira Liga que tenho consciência, que foi na temporada 1984-1985, que foi um Valladolid e Barça. Nos últimos minutos do jogo tem um pênalti para o Valladolid, que o goleiro do Barça defendeu, e o Barça foi campeão, depois de anos se ganhar um título da Liga. Acho que eu tinha uns 12 ou 13 anos. E a outra partida inesquecível foi a final de Wembley, em 1992. Essa sim eu estava no estádio, a primeira Copa da Europa [atual Champions League] do Barça, eu estava em Wembley. E não vou esquecer nunca. Quando eu vi o gol de Koeman, percebi que a vida podia ser boa. Por tudo que significou. Porque a minha avó havia morrido e nunca tinha visto o seu time ganhar uma Copa da Europa. E por outra muitas coisas. Foi especial. E depois desse título, vi outros, mas nenhuma partida foi igual a essa. A parte da loucura que foi esse momento, as pessoas chorando e tudo mais. É a magia do futebol. Foi loucura. Uma coisa inexplicável. Nesse momento, todo mundo perde os papéis. É uma coisa… E com poucas coisas nessa vida acontece o mesmo, e isso é fascinante. Como o futebol tem esse poder de levar as pessoas em um momento de loucura máxima, transgredir todas as formas, convenções, classes sociais e tudo. Todos somos iguais nesses momentos. Loucos. Ou deprimidos, porque também isso pode acontecer. 

A última: o que é futebol para você?

Uh… O futebol é mais que um esporte. Por todas as conotações sociais e políticas que possui. Por transcender o nível esportivo. É muito mais do que ganhar ou perder um título. A nível social, comove uma cidade. Ver as pessoas no dia seguinte contente, ou super deprimida e triste. Tem efeitos sociais enormes e transcendentais. O futebol é mais que um esporte, muito mais que um esporte. E são poucos esportes que são assim. Você pode ficar contente que o seu time de críquete ganhou, mas os efeitos de um título de críquete não se comparam ao título de Copa, de Liga ou da Europa do seu time de futebol. Ademais, ainda é muito popular. E é popular, porque não precisa de nada para jogar, não precisa de campo, de bola ou equipe. Eu precisaria de um cavalo para praticar hipismo, um taco, para hóquei, um carro, para automobilismo. Futebol, não precisa. A bola pode ser o que tiver, um papel amassado ou uma meia, e pode jogar onde quiser. Essa é a mágica do futebol. Pode jogar em qualquer lugar, e por isso é tão popular. Podem jogar pobres e ricos, e os pobres podem ganhar dos ricos. Por isso, o futebol é mais que um esporte.

Antes de terminar, gostaria de dizer mais alguma coisa que não teve a oportunidade de dizer?

Não, não, eu já disse muitas coisas [risos]. Só agradeço por me ouvir.

Equipe Ludopédio

Nosso objetivo é criar uma rede de informações, de pesquisadores e de interessados no tema futebol. A ideia de constituir esse espaço surgiu da necessidade e ausência de um centro para reunir informações, textos e pesquisas sobre futebol!

Daniel Vinicius Ferreira

Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná e Universitat Autònoma de Barcelona (doutorado sanduíche). Estuda a questão das identidades, pertencimentos e a globalização do futebol.

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